Portugal - íman de polaridade invertida

Entre 2019 e 2025, Portugal registou um crescimento real acumulado do PIB per capita de apenas cerca de 1% e divergiu 2.6 pontos percentuais da média europeia, passando de 79,2% para 76,6%.

A revisão da população residente divulgada pelo Instituto Nacional de Estatística (INE), em junho de 2026, altera profundamente a leitura do desempenho económico português. O INE estima agora que Portugal tinha 11.424.031 residentes no final de 2025. Só para 2024, a população foi revista para 11.387.222 pessoas, cerca de 638 mil acima da estimativa anterior.

Entre 2019, último ano anterior à pandemia, e 2025, o Produto Interno Bruto (PIB) português aumentou cerca de 11,3% em termos reais. Porém, a população cresceu quase na mesma proporção. Uma estimativa mecânica coloca o aumento real acumulado do PIB per capita português próximo de 1%. Na União Europeia, o PIB real por habitante aumentou cerca de 5,7% no mesmo período. Portugal produziu mais, mas o rendimento real por residente progrediu muito menos do que o dos seus parceiros europeus. Em termos relativos, o país ficou mais pobre.

A perda de convergência torna-se ainda mais clara quando se corrigem as diferenças de preços entre países. Em 2019, o PIB per capita português em Paridades de Poder de Compra correspondia oficialmente a 79,2% da média da União Europeia. Em março de 2026, o Eurostat publicou para 2025 uma estimativa preliminar de 81%. A revisão posterior da população tornou esse número obsoleto. Mantendo o PIB e as paridades e introduzindo a nova estimativa demográfica, o índice desce para cerca de 76,6% da média europeia. Este valor ainda não é oficial: o INE anunciou que a revisão das Contas Nacionais até 2026 será divulgada em março de 2027. Mas o cálculo de 76,6% é reproduzível.

Portugal não terá, portanto, convergido 1,8 pontos percentuais entre 2019 e 2025. Terá divergido cerca de 2,6 pontos, passando de 79,2% para 76,6% da média europeia. A distância à União Europeia aumentou de 20,8 para 23,4 pontos, isto é, cerca de 12,5%.

Uma substituição demográfica que não é economicamente neutra

O aumento populacional resultou sobretudo da imigração, mas ocorreu em simultâneo com a continuação da emigração portuguesa. O Observatório da Emigração estima que cerca de 65 mil portugueses emigraram em 2024. Os principais destinos foram a Suíça, com 12.388 entradas, Espanha, com 11.332, França, com 8.088, e Alemanha, com 7.410.

No sentido inverso, a AIMA contabilizava 1.543.697 cidadãos estrangeiros residentes no final de 2024. Trata-se de um stock, não de um fluxo anual, e não pode ser diretamente comparado com as 65 mil saídas. Mostra, contudo, a dimensão da transformação demográfica recente.

Segundo o Banco de Portugal, 31% dos emigrantes portugueses dos 25 aos 34 anos tinham ensino superior em 2021. Esta proporção era inferior aos 39% observados entre os jovens da mesma idade nascidos e residentes em Portugal, pelo que a emigração não era dominada exclusivamente pelos diplomados. Ainda assim, quase um em cada três jovens emigrantes tinha formação superior, adquirida com investimento das famílias e do sistema educativo português.

Entre os trabalhadores estrangeiros dos 20 aos 34 anos, 72,1% tinham pelo menos o ensino secundário em 2021, contra 81% dos trabalhadores portugueses da mesma idade. Estes dados precedem a grande vaga migratória de 2022-2025 e não permitem caracterizar as entradas mais recentes. Mostram, todavia, que, no grupo etário mais jovem, os trabalhadores estrangeiros apresentavam então uma estrutura escolar menos favorável.

Os dados remuneratórios confirmam: em 2023, a remuneração regular bruta mediana dos trabalhadores estrangeiros até aos 35 anos era de 769 euros, cerca de 15% abaixo dos 902 euros recebidos pelos trabalhadores portugueses da mesma idade. A diferença verificava-se em todos os setores, exceto nas atividades de informação e comunicação.

A OCDE estima que, quando entram no mercado de trabalho português, os imigrantes recebem em média menos 28% do que os trabalhadores nascidos em Portugal com a mesma idade e sexo. As diferenças de escolaridade explicam cerca de um quarto desta disparidade. O restante resulta sobretudo da concentração dos imigrantes em profissões, empresas e setores de salários mais baixos.

Nem todos os imigrantes são pouco qualificados. Existe um forte desperdício de qualificações: em Portugal, os cidadãos de países terceiros com ensino superior têm uma probabilidade de exercer uma profissão abaixo da sua formação aproximadamente quatro vezes superior à dos nacionais. Um diplomado empregado abaixo do seu nível de qualificação não vê o seu potencial convertido em produção de elevado valor.

Os dados não permitem afirmar que todos os portugueses qualificados emigram ou que todos os imigrantes são pouco qualificados. Permitem uma conclusão mais exata: Portugal continua a perder anualmente dezenas de milhares de cidadãos, entre os quais um número elevado de diplomados, e integra grande parte da mão-de-obra estrangeira em atividades de baixa remuneração.

O PIB aumentou, mas o crescimento por residente foi reduzido. Este é um modelo de desenvolvimento completamente errado. Depois de corrigido o número de habitantes, desaparece a narrativa da convergência. O país tem mais população, mais emprego e uma economia maior, mas encontra-se relativamente mais pobre.

Inverter este modelo constitui o grande desígnio estratégico. É necessário investir numa economia de elevado valor acrescentado, em vez de continuar a depender do turismo, de atividades primárias e de empregos de baixos rendimentos. Portugal tornou-se um íman de polaridade invertida: a sua economia repele os qualificados e cria trabalho mal remunerado, alimentando uma espiral de divergência face aos nossos parceiros europeus. Este desafio económico deve ser enfrentado a par do desafio demográfico. Infelizmente, não se veem sinais de mudança de paradigma.

Há uma face sombria no modelo baseado numa economia de baixo valor acrescentado, visível desde logo nas condições degradantes em que muitos trabalhadores vivem e trabalham nas estufas alentejanas. As estimativas atualmente publicadas colocam a população portuguesa mais de um milhão acima da registada em 2019, sem que escolas, hospitais, transportes, habitação, tribunais, forças de segurança e restantes serviços públicos tivessem sido ampliados na mesma proporção. Não se trata de responsabilizar quem chegou, mas quem promoveu e permitiu uma transformação demográfica desta dimensão sem planeamento público equivalente. Somos hoje mais numerosos, disputamos infraestruturas cuja capacidade não acompanhou o aumento da população, enfrentamos serviços mais congestionados e, depois de corrigida a população, descobrimos que estamos também relativamente mais pobres e mais distantes da média europeia. Se este é o milagre económico atribuído aos governos de António Costa, os seus resultados concretos exigem uma avaliação bastante menos triunfalista.