segunda-feira, 17 ago. 2026

O futuro suspenso nas casas decimais: 170 exames sem nota

Fica a lição para o futuro: fazer por fazer é um erro, sobretudo quando o resultado é o caos. Fazer bem exige competência, planeamento e uma mudança preparada com pés e cabeça.

Há números que parecem pequenos apenas porque são divididos por números muito grandes. Cento e setenta exames ainda sem classificação, num universo de 290 351 provas, representam 0,0585%: aproximadamente um exame em cada 1708. O Ministério poderá, portanto, salientar que cerca de 99,941% das provas receberam nota. A percentagem soa magnífica. Quase perfeita. É aritmeticamente correta. Mas é uma forma institucionalmente enganadora de descrever o problema.

Um exame nacional não é uma peça anónima numa linha de produção. É um documento único, realizado por um aluno concreto, e pode decidir o acesso a um curso, a uma universidade ou a uma profissão. Para cada aluno que continuava sem conhecer a sua classificação, a taxa de falha do sistema não era 0,0585%. Era 100%. A prova tinha sido realizada, entregue e confiada ao Estado; mais de um mês depois do início da primeira fase, o sistema público responsável continuava sem apresentar o resultado.

Cento e setenta provas em 290 351 não significam o colapso do sistema, mas também não permitem transformar uma incidência estatisticamente baixa num certificado de excelência. Uma organização não se avalia apenas pela proporção de processos concluídos. Avalia-se igualmente pela forma como deteta, localiza, comunica e repara as exceções. Quanto mais decisivo e urgente é o processo, menos admissível é que a exceção permaneça sem explicação ou solução.

Não é conhecida uma norma da OCDE que estabeleça quantas provas um sistema nacional pode perder, deixar por classificar ou manter indefinidamente em validação. O objetivo operacional razoável só pode ser zero. Quando não é atingido, impõem-se princípios elementares de boa administração: rastreabilidade integral, prazos definidos, comunicação individual, mecanismos de contingência e reparação sem prejuízo adicional para o candidato.

Num sistema maduro, deve ser possível reconstruir toda a cadeia da prova: quando e onde foi recebida, quando foi digitalizada, que ficheiros foram produzidos, que páginas chegaram ao classificador, que validações foram efetuadas e em que momento surgiu a desconformidade. Uma prova pode extraviar-se, uma digitalização pode ficar incompleta, um ficheiro pode ser incorretamente associado e uma validação pode falhar. O que não é aceitável é que, semanas depois, o sistema ainda não consiga apresentar ao aluno nem a classificação nem uma explicação individual clara.

A comparação com Inglaterra é instrutiva, embora não seja perfeitamente homogénea. A Ofqual – Office of Qualifications and Examinations Regulation, o regulador independente das qualificações, exames e avaliações em Inglaterra – contabilizou 1745 provas perdidas no verão de 2024, equivalentes a 0,010% das provas classificadas. Em 2025, o número desceu para 1305, ou 0,007%. Tomando estas taxas apenas como referência quantitativa bruta, a incidência portuguesa de 0,0585% é aproximadamente 5,9 vezes superior à inglesa de 2024 e 8,4 vezes superior à de 2025.

Uma prova portuguesa ainda sem classificação não é necessariamente uma prova materialmente perdida, e os sistemas e universos estatísticos não são idênticos. A diferença essencial está na resposta institucional: em Inglaterra, as perdas são contabilizadas, classificadas por causa e publicadas pelo regulador, distinguindo-se problemas de transporte, falhas das entidades examinadoras, incidentes nos centros, erros de digitalização e problemas informáticos. A transparência não elimina o erro, mas impede que ele seja dissolvido numa percentagem tranquilizadora.

Sistemas grandes falham. O escândalo institucional começa quando a falha não é rapidamente detetada, a sua natureza não é explicada, as famílias não recebem informação suficiente e o calendário de acesso ao ensino superior continua a correr como se nada tivesse acontecido.

O Governo já tinha adiado a afixação das pautas para 17 de julho, invocando dificuldades técnicas e a necessidade de garantir rigor na classificação. A segunda fase começaria no dia 20 e as candidaturas ao ensino superior mantinham a mesma data. Apesar do adiamento, os resultados só começaram a ser enviados às escolas pelas 19h30 da sexta-feira, tendo muitas pautas sido afixadas depois das 20 horas. Houve escolas que permaneceram abertas ou reabriram até perto da meia-noite, enquanto alunos e famílias aguardavam classificações que deveriam ter sido conhecidas naquele dia.

Nas primeiras pautas surgiram classificações incorretas, valores negativos e a menção «suspenso». O EduQA afirmou posteriormente que cerca de 1400 provas, entre as 290 351 realizadas, tinham necessitado de validação complementar. Responsáveis escolares falaram, por seu lado, em milhares de situações assinaladas como «suspenso». Os números foram apresentados em momentos diferentes e sem que ficasse sempre claro se se referiam a provas, classificações, registos nas pautas ou alunos distintos. Essa indefinição deveria, ela própria, ter sido cabalmente esclarecida.

Durante horas e, em muitos casos, durante dias, alunos não souberam se deveriam inscrever-se na segunda fase, repetir uma prova, confiar na classificação afixada ou esperar por uma nova nota. Famílias deslocaram-se às escolas, diretores e funcionários prolongaram o funcionamento dos estabelecimentos e milhares de pessoas ficaram sujeitas a uma incerteza inteiramente evitável numa fase decisiva da vida escolar.

Dizer que nenhum aluno será prejudicado na classificação final ou no acesso ao ensino superior é uma obrigação do Governo, não uma resposta suficiente ao que já aconteceu. A promessa de reparação futura não apaga o prejuízo causado. O próprio ministro pediu desculpa a alunos, famílias, professores e escolas e anunciou uma época especial para os estudantes que não dispunham de toda a informação necessária para decidir sobre a segunda fase. A medida era indispensável, mas a sua própria criação confirma que o calendário normal tinha sido comprometido e os alunos prejudicados.

Quando foi revelado que ainda existiam 170 casos sem classificação, já tinham terminado os exames escritos da segunda fase. Entretanto, abriram-se candidaturas, realizaram-se novas provas, tomaram-se decisões académicas, pagaram-se deslocações e acumularam-se ansiedade e incerteza. Não basta assegurar que tudo será resolvido. É necessário explicar como será determinada ou reconstruída cada classificação, como será preservada a igualdade entre candidatos e que solução será aplicada quando o resultado chegar depois de uma decisão que o aluno já foi obrigado a tomar.

Os exames nacionais exigem aos alunos pontualidade absoluta, identificação rigorosa, cumprimento minucioso das regras e tolerância quase nula ao erro. Uma folha colocada no local errado, uma resposta escrita fora do espaço previsto ou alguns minutos de atraso podem produzir consequências irreversíveis. O Estado não pode impor aos examinados um padrão de precisão que não aplica aos procedimentos pelos quais ele próprio é responsável. A autoridade de um sistema de avaliação depende dessa reciprocidade.

Como o próprio ministro reconheceu, foi imprudente confiar no calendário oficial para marcar férias. A conclusão é inevitável: nem o ministro confia no sistema que politicamente tutela. Poucas críticas externas ao sistema seriam tão devastadoras como esta confissão involuntária do seu próprio responsável político.

Não é necessário atribuir intenções ou acusar pessoas de desonestidade. Os factos são suficientemente graves: falhas técnicas, classificações incorretas ou suspensas, sucessivos atrasos, informação insuficiente e alunos sem nota muito para além do prazo anunciado. Não precisam de ser exagerados; precisam de ser esclarecidos até ao fim.

Excelente teria sido detetar cada desconformidade em horas, informar individualmente os alunos, resolvê-la em dias e publicar uma análise detalhada das causas e das medidas corretivas.

Fica a lição para o futuro: fazer por fazer é um erro, sobretudo quando o resultado é o caos. Fazer bem exige competência, planeamento e uma mudança preparada com pés e cabeça. Apresentar uma taxa global de 99,941% como demonstração de sucesso, enquanto 170 alunos continuavam suspensos no vazio, não é excelência. É apenas a antiga arte de esconder pessoas atrás das casas decimais.