Quem conhece intimamente a costa oeste portuguesa - nessa vasta, retalhada e agreste orla atlântica que se estende da Ericeira a Caminha - partilha a memória coletiva de uma liturgia estival muito própria. Durante décadas, ir à praia nestas latitudes não era um ato de mero lazer recreativo; era, na verdade, um verdadeiro ato de resistência. Um rito de passagem reservado a uma estirpe peculiar de veraneantes masoquistas, na qual orgulhosamente me incluo. Éramos, e somos, os devotos incondicionais do encanto gelado do Oeste, daquela mística penumbra matinal, evocadora das ‘brumas de memória’, e da água tónica, feroz e quase anestesiante, que emergia diretamente do oceano profundo para nos revigorar o corpo e a alma.
A nossa sobrevivência diária no areal exigia autêntica engenharia militar. Como operários numa frente de batalha, sempre com cobertores, gabardines e sobretudos no carro, não fosse S. Pedro tecê-las, escavávamos fundas trincheiras na areia e erguíamos complexas fortificações de lona e estacas. Essas barreiras de pano - os nossos icónicos paraventos, coloridos e fustigados pela ventania - eram a única defesa possível contra a implacável e uivante Nortada, cujas rajadas levantavam poeiras que nos picavam a pele como agulhas. Gelávamos na praia, é um facto. Suportávamos o frio encolhidos sob as toalhas, mas havia um pacto de honra com a natureza, porque a recompensa aguardava-nos, infalivelmente, ao fim do dia. Consolávamo-nos nas vilas piscatórias à volta de um fogareiro fumegante, a assar sargos suculentos, chocos com e sem tinta, sardinhas a pingar gordura sobre a brasa viva e carapaus amanhados com mestria e sal grosso. Era um ecossistema perfeito, um equilíbrio rude mas profundamente generoso.
Hoje, porém, toda essa cultura está condenada a desaparecer.
Nos últimos verões, uma metamorfose insólita e silenciosa tomou conta do nosso litoral. O vento, outrora o grande e temível soberano, parece cada vez mais capaz de faltar quando mais o esperamos. As heróicas trincheiras, os velhos paraventos e os inefáveis fogareiros começam a tornar-se artefactos obsoletos de um passado recente, perante um ar que agora estagna - espesso, imóvel e abafado. E o mar, que antes era o derradeiro teste à nossa bravura atlântica, exibe por vezes uma tepidez anómala e desconcertante, acolhendo demorados banhos de imersão que mais parecem roubados ao Mediterrâneo e aos reinos dos Algarves.
O que aconteceu à formidável engrenagem que governava o nosso clima ocidental? O Verão clássico do nosso litoral dependia de um motor atmosférico poderoso: o gradiente de pressão entre o Anticiclone dos Açores, instalado sobre o Atlântico, e a depressão térmica gerada pelo forte aquecimento do interior da Península Ibérica. Esta diferença de pressões favorecia o escoamento persistente de ar de norte para sul, aproximadamente paralelo à costa - a nossa temível e amada Nortada. Ao friccionar a superfície do oceano, esse vento punha em movimento a camada superficial da água. Mas, no hemisfério Norte, a rotação da Terra e a força de Coriolis desviam progressivamente esse movimento: forma-se a chamada camada de Ekman e o seu transporte líquido faz-se aproximadamente a noventa graus para a direita da direção do vento. Na costa ocidental portuguesa, com a Nortada a soprar de norte para sul, isso significa uma coisa muito concreta: a água superficial é transportada para oeste, para o largo. Este transporte de Ekman deixaria um défice de água junto à costa se o oceano não o compensasse. E compensa-o acionando uma das suas mais formidáveis máquinas: a ressurgência costeira, ou upwelling. Águas subsuperficiais, frias, densas e carregadas de nutrientes, ascendem então para substituir a água afastada da superfície. Era esta extraordinária engrenagem - Nortada, transporte de Ekman e ressurgência - que produzia a nossa adorada e temida água tónica do Oeste.
Contudo, esta engrenagem não trabalha sempre com a mesma intensidade, e basta enfraquecer uma das suas peças para todo o cenário mudar. Alterações persistentes da circulação atmosférica podem reduzir, durante dias ou semanas, os ventos costeiros que alimentam a ressurgência. Quando a Nortada enfraquece, diminui o transporte de Ekman, abranda a subida das águas frias e a camada superficial do oceano permanece mais tempo junto à costa, mais estratificada e exposta à radiação solar. Num Atlântico que entretanto acumula décadas de aquecimento, o efeito pode ser extraordinário: a velha bomba de água fria perde força e o mar aquece rapidamente à superfície. Não precisamos, portanto, para já, de invocar o colapso da Corrente do Golfo nem qualquer conspiração meteorológica transatlântica. Basta algo mais simples - e talvez mais inquietante: durante tempo suficiente, o vento deixa de fazer o trabalho que sempre julgámos garantido.
Se para muitos isto soa ao apogeu do paraíso balnear, a realidade ecológica e cultural encerra uma autêntica tragédia. O mecanismo de ressurgência não trazia para a superfície apenas águas frias; era um gigantesco elevador de nutrientes fundamentais - fosfatos, nitratos e silicatos - que fertilizavam a costa. Essa ‘sopa’ nutritiva é a base que sustenta colossais nuvens de fitoplâncton e, com elas, a prodigiosa riqueza da nossa costa. Sem a Nortada, não há água fria; sem água fria, não há nutrientes, e a base da cadeia alimentar desmorona. As águas quentes e estéreis são um deserto biológico indesejado para as nossas espécies autóctones. O peixe afasta-se ou não sobrevive. A fartura do sargo robusto, a mágica gordura da sardinha de Verão e o carapau esguio que consolava as nossas noites agrestes - tudo isso vai, inevitavelmente, morrer.
E enquanto o ecossistema marinho padece e o peixe emigra, uma nova e voraz força prepara-se para tomar de assalto o Oeste: as previsíveis invasões de hordas de turistas. Durante décadas, o frio cortante, as águas de gelo e as abençoadas brumas matinais foram o nosso mais eficaz escudo protetor. Esta formidável barricada meteorológica manteve a costa oeste a salvo do turismo massificado, preservando a sua aura selvagem, nostálgica e indomável. Os nossos lemas quase caídos em desuso eram: ‘deitar tarde e acordar tarde, que antes da uma não abre’, e ‘se queres calor vai para o Algarve’...
O enfraquecimento da Nortada escancara os portões da muralha. Águas subitamente quentes, manhãs claras, ao gosto do nórdico madrugador, e céus sem vento são o isco fatal para as massas. O impacto, devastador e irreversível, já rasga a paisagem. A especulação imobiliária varre o litoral como um tsunami de betão silencioso. Os preços da habitação e dos terrenos, em toda a linha de costa de Peniche a Caminha, atingem valores estratosféricos, empurrando implacavelmente as populações locais para o interior. É ver a destruição criminosa da paisagem e dos habitats no Bom Sucesso ou na Comporta. O nosso agreste e amado Oeste transforma-se, a uma velocidade vertiginosa, num mero eldorado para fundos de investimento e alojamentos de luxo.
Estamos a testemunhar o fechar de um ciclo, o ruir de um mundo termodinâmico e social num planeta agora mais quente. Teremos, é certo, verões de águas mornas que nos permitirão esquecer a velha engenharia dos paraventos. Mas o preço a pagar será a perda da nossa identidade. Teremos banhos fáceis, mas ficaremos sem o mar que nos desafiava, órfãos do peixe genuíno nas nossas grelhas e despojados da alma intempestiva, gelada e livre do nosso velho Oeste.