Tenho 74 anos de idade.
No 25 de Abril já estava ligado à oposição democrática (Sedes, Congresso dos Liberais, etc.).
Tendo Durão Barroso ocupado a faculdade de Direito com o MRPP e sendo eu finalista, juntamente com o meu compadre Carlos Barbosa da Cruz, resolvemos, na situação de não podermos frequentar a faculdade nem acabarmos o curso, participar na revolução, concretamente no partido em que nos revíamos ideologicamente: o então PPD.
O Carlos e eu, o Marcelo e o irmão António (rapidamente desertou para o PS) abrimos a primeira sede do PSD no Rato.
Falei, juntamente com Francisco Balsemão, no primeiro comício do PSD, em Benavente e, depois, em dezenas mais com outros dirigentes como Marcelo, Pedro Roseta, etc.
Na numeração inicial do PSD atribuíram-me o cartão n.º 3 que me recusei a devolver nas renumerações subsequentes e tenho tal cartão em meu poder. Hoje sou o militante n.º 2.
Fui, com 23 anos, o primeiro e único vereador do PPD na Câmara de Lisboa no período de 1974-1975, tendo combatido a esquerda com todas as minhas forças, como está publicado.
Durante duas legislaturas também fui deputado e depois ministro, sempre pelo então PPD/PSD.
Enumero estes factos porque com o que dei ao ora PPD/PSD, ao longo de mais de 50 anos, julgo ter a autoridade, a obrigação e o conhecimento da história e ideologia do partido para me poder pronunciar sobre este momento, entre as duas voltas das presidenciais em curso, tendo como destino os militantes do PSD e os cidadãos.
Não vou poupar nas palavras.
A presente direção do PSD assim como o governo AD (foram buscar o CDS que estava morto e conseguiu empertigar-se à boleia) são verdadeiramente lamentáveis na sua atuação, quer em termos de credibilidade quer em eficiência.
Poderia elencar várias situações, mas vou apontar algumas, explicativas por si só.
Logo depois das primeiras eleições que deram a vitória à AD colocou-se a questão, que fez correr muita tinta, do acordo AD/Chega quanto à figura do Dr. Aguiar Branco, pessoa que considero ser superior em caráter e competência, para presidir à Assembleia da República.
Era, então, pacífico, até na comunicação social, que tinha havido um acordo AD/Chega para a eleição do Dr. Aguiar-Branco. Com enorme deslealdade o acordo veio a ser negado pelo primeiro-ministro. Só que ele próprio me escreve, num SMS da altura, o seguinte:
«Com o devido respeito, vocês estão a ver tudo ao contrário. Evidentemente que não houve nenhum acordo de governação, nem vai haver. Houve um acordo para as eleições de hoje e o Chega quebrou-o. Essa é a única coisa inequívoca. As palavras do Rangel e do Melo são óbvias. Enfim».
Como é óbvio nunca referi um impensável acordo de governação. Mas é Montenegro quem escreve que «houve um acordo para as eleições de hoje». Que o Chega quebrou não há sinal, mas antes que a AD quebrou, pelas intervenções dos ministros Paulo Rangel e Nuno Melo.
O primeiro-ministro é desastrado, no mínimo, em muitas das escolhas das pessoas ministeriais que o rodeiam assim como no cumprimento, falhado, de promessas eleitorais de execução supostamente rápida (saúde, habitação, etc.).
As ministras da Administração Interna que o Governo teve, e tem, são escolhas absolutamente impensáveis. Como é possível escolher aquelas figuras para estarem à frente de estruturas hierarquizadas e militarizadas como a Proteção Civil, Bombeiros, GNR e PSP.
Marques Mendes, no seguimento da decisão disparatada, em Congresso, de que o candidato do PSD devia ser militante do PSD, forçou, por ambição pessoal, ser a escolha do PSD, sem ter discernimento para olhar para o umbigo. Mas o chefe é Montenegro que não deveria ter aceite aquele candidato e escolher outro, com qualidade e figura, que, obviamente, devia ser Aguiar-Branco, o qual ganharia de certeza, as Presidenciais.
Eu entendia que o candidato deveria ser alguém que infundisse autoridade e respeito por contraposição a um Presidente populista, como foi Marcelo.
Pertenço a uma tertúlia que se junta uma vez por mês, composta por gente muito inteligente, ministros, ex-ministros e outros fundamentalmente de Coimbra.
Marques Mendes participava e, há três ou quatro meses, apareceu atrasado, como sempre acontecia até em Conselho de Ministros de Cavaco. Ficou à minha frente e a certa altura a propósito das Presidenciais disse para todos ouvirem «Tenho um problema com o Henrique que não gosta de mim». Não gostei do remoque porque não era verdade. Disse-lhe que estava a mentir e que era lamentável não distinguir, como acontecia em 50 anos de discussão político-partidária no PSD, entre a relação pessoal e a apreciação política. Pessoalmente gostava dele, que até fora meu líder parlamentar, mas politicamente detestava-o. Isto porque não era frontal sempre que havia que tomar posição em assuntos importantes. Fugia entre os pingos da chuva e andava com o Marcelo ao colo o qual por sua vez andava com o Costa ao colo.
A discussão continuou. A Tertúlia parou e embora em clara oposição demos um abraço.
A propósito de António Costa, tive com o primeiro-ministro um controverso diálogo escrito. Costa foi para mim, um político traiçoeiro ao aceitar introduzir em Portugal 1.5 milhões de emigrantes desfigurando a sociedade portuguesa. Montenegro argumentou que era Português o que não tem sentido para quem se diz ultra europeísta e, portanto, o que deveria contar era a competência de alguém e não a incompetência de Costa. Costa foi um bluff, não fez rigorosamente nada na sua governação, deixou o País numa calamidade. Para mim o apoio do Governo Português à ida de Costa para Presidente do Conselho Europeu poderá ter como explicação um pacto secreto entre as lideranças do PSD e o PS.
Prevendo, com grande antecipação, o desastre Marques Mendes, como lhe disse ‘na cara’, apoiei Gouveia e Melo por me parecer, à partida, apresentar o que Marcelo nunca teve: gravitas e autoridade.
Vendo o evoluir da situação acabei por votar Ventura.