As imagens televisivas mostram prédios que se esboroaram e a desolação de quem socorre recorrendo às próprias mãos. No momento em que escrevo há apenas uma certeza: dois sismos de grande magnitude atingiram no espaço de segundos a Venezuela e o balanço de vítimas poderá ser muito pesado.
Na véspera da tragédia o Financial Times dava nota de outra, uma dívida de 240 mil milhões de dólares, um valor muito superior ao que se pensava, num momento em que o país se lança na maior reestruturação soberana da história, ultrapassando a Grécia de 2012.
A Venezuela é um caso de estudo perfeito do fracasso de uma experiência socialista. Hugo Chávez entrou em cena na política como quem abre uma janela num quarto abafado. Não vinha das salas acarpetadas das elites; trazia no casaco o cheiro do quartel e, nos olhos, a cartografia da desigualdade. Foi acenando um projeto de esquerda – primeiro esboço, depois mural – à medida que estreitava laços com a ilha de Fidel e outros regimes de fé semelhante. A bonança do petróleo encheu cofres, pagou promessas, comprou silêncio e lealdades. Com dinheiro e músculo, reescreveu a Constituição, redesenhou o jogo, moveu as linhas do campo. E cumpriu o rito da terra: ergueu Simón Bolívar como estandarte, palavra-pedra que ninguém contesta, e vestiu-se de ‘segundo libertador’. Percebeu cedo a fome antiga do país – não por um governante, mas por um salvador – e ofereceu-se, inteiro, como resposta.
Hugo Chávez foi eleito democraticamente em 1998 em plena crise económica e institucional. Durante a sua presidência, introduziu reformas institucionais para aumentar os seus poderes e prolongar o seu tempo no poder.
Entre 2004 e 2010, usou repetidamente legislação para condicionar o Supremo Tribunal de Justiça (2004) e enfraquecer os meios de comunicação adversos (2004, 2005, 2010), bem como referendos (em 2007 e 2009) para prolongar indefinidamente o seu tempo no poder. Apesar de limitadas, as eleições na
Venezuela em 2006 ainda eram consideradas livres e justas. Em 2009, já não era o caso. Com total controlo sobre o Parlamento, Tribunais e órgãos de fiscalização, o Governo foi capaz de perseguir membros da oposição e distorcer severamente o seu acesso aos meios de comunicação e outros recursos, tornando quase impossível derrotar o chavismo nas urnas.
Com o seu sucessor Nicolás Maduro a repressão agudizou-se, e a quebra no preço do petróleo tornou a Venezuela num Estado indigente: em 2019, o rendimento médio na Venezuela era de 72 centavos de dólar por dia. De acordo com as Nações Unidas, 7,9 milhões de pessoas na Venezuela necessitam de ajuda humanitária (ou seja, 27,7 % da população). Cerca de 56 % da população vive em situação de pobreza extrema. A situação em matéria de segurança alimentar na Venezuela continua a ser crítica, com 15 % da população total (cerca de 4 milhões de pessoas) a necessitar urgentemente de assistência alimentar, várias crianças morreram de fome, e 40 % em situação de insegurança alimentar moderada a grave. Cerca de 62 % da população não tem acesso regular a água. Desde 2015, foram deslocados a nível mundial quase oito milhões de venezuelanos deixaram o seu país , tendo a maioria (mais de 6,9 milhões de pessoas) sido acolhida em países da América Latina e das Caraíbas. Os venezuelanos constituem atualmente o segundo maior grupo de requerentes de asilo na UE, a seguir aos afegãos.
Mas as tragédias não acabam aqui. Os regimes de Chávez e Maduro transformaram a Venezuela num centro operacional do Hezbollah. Aproveitando as ligações de longa data com o Irão, o Governo venezuelano criou um ambiente que permitiu ao Hezbollah manter células ativas envolvidas no tráfico de droga, na lavagem de dinheiro e no contrabando. O Departamento do Tesouro dos EUA identificou figuras-chave nesta rede, incluindo o empresário venezuelano Fawzi Kan’an e o diplomata Ghazi Nasr al-Din – que facilitam a formação ideológica, a preparação de milícias e as redes de tráfico ilícito de armas e narcóticos. A acusação, em 2020, do ex-deputado venezuelano Adel El Zabayar – acusado de coordenar o tráfico de cocaína e de armas entre o Governo de Maduro e o Hezbollah – demonstra ainda mais estas ligações a nível estatal. Em junho de 2022, o Irão e a Venezuela formalizaram um acordo de cooperação de 20 anos, no qual Maduro alinhou explicitamente o seu país com o Eixo da Resistência do Irão.
A detenção de Maduro pelos EUA veio interromper estas ligações perigosas, infelizmente não devolveu ainda a Venezuela aqueles que legitimamente ganharam eleições.
Analista de assuntos internacionais e risco geopolítico, Lecturer