quarta-feira, 22 jul. 2026

Memorando com Teerão: a prudência não dispensa lucidez

A diplomacia obriga a lidar com regimes que não partilham valores nem objetivos com as democracias liberais. Nesse sentido, negociar com o Irão não é um sinal de fraqueza ou ingenuidade. Pode até ser uma necessidade.

Um entendimento entre Washington e o Irão pode reduzir riscos imediatos. Mas seria um erro confundir uma pausa tática com uma alteração da natureza de um regime que continua a projetar instabilidade dentro e fora das suas fronteiras.

Os memorandos de entendimento têm uma utilidade política evidente: permitem baixar a temperatura, criar espaço negocial e adiar cenários de rutura. No caso da relação entre os Estados Unidos e o Irão, esse objetivo não é despiciendo. Num Médio Oriente já marcado por guerras abertas, confrontos indiretos e equilíbrios frágeis, qualquer mecanismo que reduza o risco de escalada merece ser levado a sério. O problema começa quando a necessidade de evitar o pior é confundida com a expectativa de estar perante uma verdadeira mudança de comportamento por parte do regime iraniano.

É esse equívoco que importa evitar. O Irão não é apenas um ator regional difícil, com interesses de segurança próprios e uma leitura hostil da ordem internacional. É um regime que, desde há décadas, faz da confrontação um elemento estrutural da sua projeção externa. A sua influência não assenta apenas na capacidade diplomática ou militar convencional, mas numa teia persistente de alianças armadas, milícias e atores subsidiários que lhe permitem condicionar o equilíbrio regional sem assumir sempre os custos de um confronto direto. Do Líbano ao Iraque, da Síria ao Iémen, a presença iraniana tem estado associada menos à estabilização do que à erosão das soberanias e à prolongação dos conflitos.

É verdade que a questão nuclear concentra, legitimamente, a maior parte da atenção internacional. E compreende-se porquê: a possibilidade de o Irão se aproximar de capacidade nuclear militar alteraria profundamente o equilíbrio regional e elevaria o risco de proliferação e de confronto. Mas o problema iraniano não se esgota aí. Reduzi-lo ao dossier nuclear é correr o risco de tratar o sintoma mais visível e ignorar a arquitetura política que lhe dá enquadramento. O perigo representado por Teerão reside, em simultâneo, na sua ambição estratégica, na instrumentalização da instabilidade regional e na natureza de um regime que continua a reprimir internamente enquanto projeta externamente uma política de pressão, intimidação e desgaste.

A diplomacia, por definição, obriga a lidar com regimes que não partilham valores nem objetivos com as democracias liberais. Nesse sentido, negociar com o Irão não é, em si mesmo, um sinal de fraqueza ou ingenuidade. Pode até ser uma necessidade. Mas a utilidade da diplomacia depende sempre da qualidade do diagnóstico. E um diagnóstico errado produz, quase sempre, maus acordos. Henry Kissinger observou, em diferentes formulações ao longo da sua obra, que a ordem internacional não se sustenta em intenções, mas no equilíbrio entre poder, credibilidade e interesse. A observação conserva atualidade: qualquer entendimento com Teerão que assente mais na esperança ocidental de moderação do que em mecanismos robustos de verificação e dissuasão arrisca-se a falhar no essencial.

O ponto, por isso, não está em rejeitar liminarmente um memorando de entendimento. Está em não lhe atribuir virtudes que ele, por si só, não pode ter. Um memorando pode congelar dinâmicas, criar canais de comunicação e comprar tempo. O que não pode fazer, sem mais, é alterar a natureza política do regime iraniano nem neutralizar a lógica estratégica que o orienta. Se o resultado for apenas aliviar pressão externa sem contrapartidas verificáveis e duradouras, o entendimento poderá servir sobretudo os interesses de Teerão.

A prudência diplomática é necessária. Mas, no caso do Irão, só será útil se vier acompanhada de lucidez estratégica. Há regimes com os quais se negoceia para conter riscos; não para alimentar ilusões. O Irão continua a ser um deles.

Analista de assuntos internacionais e risco geopolítico, Lecturer