quarta-feira, 13 mai. 2026

Lições de Budapeste

Apesar de ser um animal político intuitivo, Viktor Orbán deparou-se com os limites do sistema autocrático, formulados no século XIX pelo britânico Lord Acton: ‘O poder tende a corromper, o poder absoluto a corromper absolutamente’. 

A derrota de Viktor Orbán na Hungria é mais do que uma alternância no poder. É uma mensagem político para a Europa e, ao mesmo tempo, uma confirmação de que os regimes iliberais têm sempre um prazo de validade. Durante anos, Orbán foi celebrado pela direita populista como o homem que soube enfrentar Bruxelas, controlar a imprensa, dominar a magistratura e transformar o Estado num instrumento de poder pessoal. Mas o que parecia força revelou-se, afinal, um modelo assente em fragilidades profundas.

«Em cada momento determinante da sua história contemporânea, a Hungria enviou sinais de esperança que ressoaram no Velho Continente», nota o L’Express.

Nas legislativas, tal como em 1848, em 1956, e em 1989, os húngaros mostraram determinação em conquistar liberdade política e em restaurar a sua dignidade nacional. No século XIX, sacudiram o jugo dos Habsburgos, no século XX, derrubaram o jugo soviético, desta vez, sacudiram um sistema político corrupto, erguido por Viktor Orbán ao longo de dezasseis anos

A primeira lição de Budapeste é dirigida aos autocratas. Colocar um aparelho de Estado ao serviço de um homem e dos seus apparatchiks acaba sempre por se virar contra o poder. 

A segunda lição é que o fracasso de Orbán é, antes de mais, económico. Uma economia supostamente ‘soberana’, em que o Estado exerce o seu domínio sobre o mercado, reserva os contratos públicos aos seus apaniguados e subjuga as instituições que deveriam ser independentes (justiça, banco central, tribunal constitucional, meios de comunicação social), não funciona. Favorece o nepotismo e a venalidade. Na última década os húngaros olharam com inveja para o crescimento económico fulgurante de polacos e bálticos enquanto seus salários figuravam entre os mais baixos do continente, enquanto alguns próximos de Orbán enriqueciam.

A Europa sai reforçada destas eleições parece ser outra ilação a retirar, embora o novo eleito ainda tenha de dar provas. Péter Magyar, o novo chefe de Governo prometeu que a Hungria seria «novamente um país europeu». A derrota de Viktor Orbán elimina as alavancas que a sua cooperação oferecia a Moscovo e a Pequim para influenciar as decisões de Bruxelas. Reforça a posição da Ucrânia face à Rússia, autorizando o próximo desbloqueio do  empréstimo comunitário de 90 mil milhões de euros a Kyiv.

Por fim, o resultado da votação inflige um revés significativo à ‘internacional iliberal’. Marine Le Pen, Alice Weidel,  Geert Wilders e até o vice-presidente americano J. D. Vance deslocaram-se a Budapeste para apoiar Orbán. A derrota do Fidesz é  de alguma forma também a deles e um alerta para o centro-direita não cair em tentação. «As sociedades não precisam de ser liberais para serem democráticas», declarou o primeiro-ministro húngaro em 2014. Desta forma justificava a sua tripla oposição ao Estado de direito, acusado de impor normas jurídicas insuportáveis, à integração europeia, suspeita de restringir a soberania, e ao progressismo social, que minaria a coesão e a identidade nacionais. O movimento MAGA foi inspirado pelo húngaro, Orbán era «Trump antes de Trump», dizia o mago do caos Steve Bannon. 

O seu legado, no entanto, poderá não desaparecer tão cedo. «Orbán percebeu que a polarização podia ser uma tática vencedora; que a imigração descontrolada era uma arma de disrupção política para os europeus; que a insegurança gerada pelas revoluções tecnológicas e sociais poderia tornar-se um poderoso combustível eleitoral», elenca o L’Express.

Apesar de ser um animal político intuitivo Viktor Orbán deparou-se com os limites do sistema autocrático, formulados no século XIX pelo britânico Lord Acton: «O poder tende a corromper, o poder absoluto a corromper absolutamente». 

E esta é a última  grande lição da derrota de Orbán: a democracia liberal tem muitos defeitos, mas, como terá dito Churchill, as alternativas são muito piores.

Analista de assuntos internacionais e risco geopolítico, Lecturer