quinta-feira, 14 mai. 2026

Encruzilhadas e escolhas

Enquanto os riscos globais continuam a aumentar em escala, interconectividade e velocidade, 2026 marca o início de uma nova era de competição estratégica entre potências, as duas grandes potências, EUA e China, e as potências regionais

Há momentos na história em que as cartas são redistribuídas de forma tão abrupta que os países que não souberam antecipar a mudança podem ficar de fora por muito tempo. O sistema internacional em 2026 encontra-se num ponto de inflexão marcante. O pressuposto pós-Guerra Fria de que uma ordem única e universalista iria gradualmente alargar o seu alcance foi substituído por uma realidade muito mais volátil. As três maiores potências nucleares estão agora a reafirmar explicitamente as suas prerrogativas regionais de formas que põem à prova, e cada vez mais violam, o direito internacional e as normas de longa data relativas à soberania e à proibição da conquista territorial.

A agressão militar em curso da Rússia, o domínio económico e político da China na Ásia e além, e a reafirmação pela atual administração dos Estados Unidos da sua influência privilegiada sobre o Hemisfério Ocidental correspondem a uma lógica comum de revisionismo das grandes potências e de projeção de poder regional. Estes atos não se limitam a teatros de operações isolados; repercutem em regiões onde uma ou mais destas potências procuram moldar os resultados, criando cascatas de alinhamento, contra alinhamento e contestação institucional. A consequência imediata é uma ordem global em mosaico, na qual a cooperação continua a existir onde é indispensável, mas a contestação define cada vez mais a maioria das relações entre Estados.

Em 2023, o Relatório sobre Riscos Globais do Fórum Económico Mundial considerou a possibilidade de uma policrise, à medida que riscos provenientes de múltiplos domínios se manifestam simultaneamente. Três anos mais tarde uma nova ordem competitiva ganha forma e a policrise agrava-se. Assistimos à agitação causada por guerras cinéticas – Ucrania, Irão –, à utilização de armas económicas para obter vantagem estratégica – das tarifas de Trump ao bloqueio do estreito de Ormuz – e à crescente fragmentação das sociedades. À medida que estes riscos mais palpáveis se desenrolam, os desafios a longo prazo, desde a aceleração tecnológica até ao declínio ambiental, continuam a criar efeitos em cadeia em todos os sistemas. Paralelamente, as regras e instituições que há muito sustentam a estabilidade estão cada vez mais num impasse ou a revelar-se ineficazes na gestão desta turbulência geopolítica. Exemplo paradigmático dessa incapacidade são as Nações Unidas.

Muitos governos encaram a autonomia estratégica como uma resposta necessária a este vazio crescente e estão a expandir as capacidades de defesa dos seus países. Armas totalmente novas, incluindo aquelas possibilitadas pela IA, estão também a criar novos riscos. Neste contexto em evolução, que é simultaneamente menos previsível e mais militarizado, é provável que haja um risco acrescido de conflitos, sendo os países menos poderosos especialmente vulneráveis. De acordo com o Índice Global de Paz de 2025, há mais conflitos armados entre Estados em curso do que em qualquer outro momento desde a Segunda Guerra Mundial; os principais indicadores de risco de conflito estão nos seus piores níveis desde a Segunda Guerra Mundial; e várias dezenas de países estão a registar um agravamento das relações com os países vizinhos.

Enquanto os riscos globais continuam a aumentar em escala, interconectividade e velocidade, 2026 marca o início de uma nova era de competição estratégica entre potências, as duas grandes potências, EUA e China, e as potências regionais. Com os mecanismos de cooperação a desmoronar-se e com os governos a afastarem-se dos quadros multilaterais, a estabilidade está sob ameaça.

A crescente polarização social e política intensifica as pressões sobre os sistemas democráticos, favorecendo regimes autocráticos, à medida que movimentos extremistas sociais, culturais e políticos desafiam a resiliência institucional e a confiança pública. A prevalência crescente de narrativas do tipo ‘ruas contra elites’ – comuns a partidos radicais de esquerda e direita - e a aparente surdez das elites face às preocupações e anseios das populações, reflete uma desilusão cada vez mais profunda com as estruturas tradicionais de governação, deixando muitos cidadãos a sentir-se excluídos dos processos de tomada de decisão política e cada vez mais céticos quanto à capacidade da elaboração de políticas de proporcionar melhorias tangíveis nas condições de vida. A desigualdade - real ou percecionada - foi selecionada pelos inquiridos do Relatório sobre Riscos Globais de Davos como o principal risco global pelo segundo ano consecutivo, seguida de perto pela recessão económica.

As divisões cada vez mais profundas ao longo de linhas políticas, culturais ou de identidade no seio das sociedades estão a ser amplificadas por riscos tecnológicos, tais como a desinformação.

O futuro não é um caminho único e determinado, mas sim um leque de trajetórias possíveis, cada uma delas dependente das decisões tomadas. Ao antecipar hoje o que pode vir a seguir, podemos preparar-nos melhor para os desafios de amanhã.