Berlim e Paris têm uma relação difícil, como muitos casais que coabitam há décadas. Ano após ano as páginas dos jornais europeus fazem a crónica de um divórcio anunciado. O casamento germano-francês formalizado no pós-guerra, é no século XXI diferente do que foi até à reunificação alemã. Se até 3 de Outubro de 1990 o protagonismo era francês e coexistia com uma Bona (a capital só se transferiu para Berlim após a queda do Muro) deliberadamente discreta da Alemanha, um reflexo do seu passado, hoje Paris é um parceiro júnior da Alemanha. Embora Emmanuel Macron faça do papel de liderança da França, o que lhe é permitido por sucessivos chanceleres alemães porque a Alemanha, tem interesse em que a sua liderança não se torne demasiado ostensiva e vista como unilateral (as feridas da crise da Zona Euro e dos refugiados ainda estão abertas), verdade é que Berlim tem as cartas. E Berlim tem interesse na continuidade da Europa da Defesa porque sabe que a sua maior ameaça securitária advém de Moscovo.
É neste contexto que Paris e Berlim acabaram de anunciar a sua nova aliança em torno da KNDS, o fabricante franco-alemão de sistemas de defesa terrestre criado em 2015: dentro de algumas semanas, a KNDS (o fabricante do carro de combate Leopard e do canhão César) fará a sua entrada nas duas bolsas de valores. Uma cotação que representa um ato político. Pois, graças a esta dupla entrada na bolsa, os dois Estados ficam em pé de igualdade: 40 % cada um na KNDS e um compromisso de dez anos: o casal celebrou um contrato de casamento à prova de balas. «É um sinal positivo, que demonstra que, apesar dos recentes contratempos, pode existir uma visão operacional franco-alemã. A chave estará na implementação e na existência de verdadeiros programas comuns», analisa André Losekrug-Pietri, presidente da Joint European Disruptive Initiative.
Será que esta aproximação industrial prenuncia um enamoramento político? Desde a chegada de Friedrich Merz à chancelaria, as relações com o Presidente francês parecem ter recuperado uma certa intensidade. Ambos partilham uma visão lúcida face aos desafios: o rearmamento da Europa, a ameaça russa persistente, um aliado americano cuja fiabilidade oscila ao sabor dos caprichos de Donald Trump. Todavia persistem nuvens no horizonte. Quem será o novo ocupante do Eliseu inquieta Berlim que vê como um pesadelo a extrema-esquerda ou a extrema-direita a liderarem a França. Entre um país falido e outro incapaz de tomar decisões rápidas, a incompreensão e a impaciência crescem, num contexto de paralisia política e de ascensão dos nacionalismos. O KNDS, por si só, não resolverá todas as divergências. Mas se a operação resultar e o pragmatismo prevalecer sobre as egoísmos nacionais, o velhinho casal germano-francês continuará a ser um pilar de estabilidade