quarta-feira, 09 set. 2026

Ceuta e o fracasso do governo feminista español

Chamem-lhe o que quiserem – seletividade, calculismo político, feminismo à la carte. O que não se pode chamar é proteção incondicional da criança, porque essa, em Ceuta, tirou férias

Nos dias 30 e 31 de julho de 2026, mais de 72 mil pessoas entraram em Ceuta vindas de Marrocos – o equivalente a 70% da população habitual da cidade autónoma. Foi a maior vaga alguma vez registada na fronteira sul espanhola, com pelo menos cem mortos na travessia segundo fontes oficiais. A Guarda Civil confirmou, entretanto, quinze agressões sexuais registadas na cidade desde então, a mais recente na sexta-feira anterior a 16 de agosto: três indivíduos a tentar abusar de uma menina de dez anos. Entre os detidos consta um homem com antecedentes ligados a terrorismo e ordem de busca da Interpol. Os tribunais abriram processos por três desses casos, dois com vítimas menores, resultando em duas prisões preventivas e numa expulsão. Estes números não vêm de boatos nas redes sociais – vêm da própria Guarda Civil, da Polícia Nacional e dos tribunais.

O que revela verdadeiramente a crise não são só os números. É a forma como o Governo espanhol, que se apresenta sistematicamente como paladino do feminismo institucional, reagiu a estes números concretos.

No mesmo dia 15 de agosto em que a Guarda Civil confirmava as quinze agressões, a ministra da Igualdade, Ana Redondo, publicou nas redes sociais uma condenação do que chamou ‘apartheid’ das mulheres no Afeganistão. Sobre Ceuta, nem uma palavra. No dia anterior, questionada sobre as menores na cidade, tinha garantido que não andavam a «deambular» pelas ruas, mas sim em «espaços seguros» – avaliação feita a partir de Madrid, já que a ministra não considerou necessário pisar Ceuta durante a crise.

A ministra da Saúde, Mónica García, foi mais longe: em visita à cidade, reconheceu apenas cinco das quinze agressões confirmadas pela Guarda Civil, alegando que as restantes «não passaram pelos pontos de violência machista». Não contestou os factos – contestou a contabilidade. Uma menina agredida que não preenche o formulário certo, ao que parece, conta menos.

Já Sira Rego, ministra da Juventude e Infância, foi a governante que mais perto chegou de abordar o tema – e mesmo assim não o disse. A 7 de agosto reconheceu uma «mudança» no perfil dos menores que chegam, com «imagens dolorosas», mas evitou sistematicamente as palavras «violação» ou «agressão sexual», centrando o discurso público nos 25 milhões de euros de crédito extraordinário anunciado e na reagrupação familiar, números e processos, sempre mais confortáveis do que verbos que obrigam a olhar para a vítima.

E Pedro Sánchez? Nada. Nem uma declaração. Na videoconferência que presidiu com sete ministros para tratar da crise, o resumo oficial divulgado por Moncloa limitou-se a mencionar o reforço das «garantias de segurança e bem-estar» dos ceutíes – sem uma única referência às agressões sexuais confirmadas.

Esta discrepância não passou despercebida à Oposição: a secretária-geral do PP, Cuca Gamarra, classificou de «absoluta vergonha» que o Governo insista em que existe segurança na cidade «com os dados que têm de ataques sexuais a mulheres e meninas», acusando o Executivo de só reivindicar o feminismo quando lhe convém.

É este o cerne da questão. Ninguém está aqui a pedir que se atribua culpa coletiva a quem atravessou a fronteira a fugir de outras violências – os processos são, e bem, individuais, com presunção de inocência para os arguidos. O que se pede é bem mais simples: que o mesmo Governo que interrompe a agenda para condenar o regime talibã a sete mil quilómetros de distância consiga, pelo menos uma vez, dizer a palavra «violação» quando a vítima está a duzentos metros do posto fronteiriço de Ceuta. Mas isso, pelos vistos, exigiria um tipo de coragem que não cabe na comunicação da Moncloa.

Chamem-lhe o que quiserem – seletividade, cálculo político, feminismo à la carte. O que não se pode chamar é proteção incondicional da infância, porque essa, em Ceuta, tirou férias exatamente quando era mais precisa.