Há qualquer coisa de comovente na capacidade que a Universidade de Cambridge tem de se surpreender consigo própria. Depois de meses a defender Jason Arday como vítima de uma «campanha vil» - antes de, com a delicadeza de quem larga uma batata quente, depois de queimar as maõs, aceitar a sua demissão após acusações de plágio, currículo fantasiado e uma biografia tão inspiradora que só lhe faltava banda sonora -, a universidade mais antiga do mundo em língua inglesa decidiu que o problema estava resolvido. Um professor a menos, um comunicado a mais, seguimos em frente.
Só que não. Enquanto o caso Arday ainda fumegava, descobre-se que a Faculdade de Educação de Cambridge tem também nos seus quadros uma professora assistente, antiga apoiante do Hizb ut-Tahrir, banido no Reino Unido em 2024 como organização terrorista, que passou duas décadas a escrever que a educação ocidental é uma «ameaça» ao Islão, que a democracia é uma «tradição corrupta», que a ciência é um «projeto colonial» e que um clássico da literatura como Romeu e Julieta é perigoso porque incentiva o namoro. É a mesma faculdade. É o mesmo edifício. Provavelmente partilham a máquina do café.
A ironia, já de si generosa, torna-se obra prima quando se percebe que ambos os casos nasceram do mesmo instinto institucional: o de tratar a diversidade como um objetivo estético a preencher, não como um processo a verificar. Contratou-se o jovem professor negro mais improvável do Reino Unido sem perguntar demasiado sobre o currículo, porque a narrativa era boa demais para se estragar com factos. Contratou-se - e promoveu-se - a académica que escreveu que ensinar às crianças que o casamento infantil é errado constitui «indoutrinação secular», que defendeu a poligamia, masculina entenda-se, e que atacou a democracia ocidental,porque, presumivelmente, também isso soa a inclusão. Cambridge não peca por excesso de rigor; peca por excesso de enredo.
Vale a pena imaginar uma reunião deste departamento. De um lado da mesa, um professor que inventou maratonas, cargos honorários fictícios e maltratava estudante brancos invocado o «white privilege». Do outro, uma diretora de investigação de pós-graduação que considera que ensinar a ler e escrever é secundário face à preparação da alma para o akhira. E, no meio, um coro de académicos seniores - incluindo, já agora, quem assinou a carta a exigir uma investigação independente sobre o ‘verdadeiro’ escândalo, que seria, note-se, o de terem investigado Arday - todos absolutamente convencidos de que o problema é a direita a ‘instrumentalizar’ a diversidade, e não a instituição a confundir progressismo com ausência de escrutínio.
Este é o truque de mágica do wokismo institucional: transformar qualquer pergunta incómoda sobre credenciais, factos ou coerência intelectual num ataque identitário. Questionar o currículo de Arday? Racismo. Questionar se uma simpatizante de uma organização banida por terrorismo deve moldar a forma como a próxima geração de professores britânicos pensa sobre ciência, democracia e igualdade de género? Islamofobia, decerto, ou pelo menos assim se argumentará em algum seminário sobre ‘descolonização do currículo’ a decorrer, já agora, na própria Faculdade de Educação.
E os reguladores? Fiéis a si mesmos, isto é, ausentes. A mesma inércia que deixou duas escolas geridas por antigos ativistas de Hizb ut-Tahrir continuarem a receber financiamento público, ano após ano, é a que agora observa uma professora de Cambridge a co-assinar um «kit de ferramentas» a explicar como tornar uma escola mais islâmica, sem que no Ministério da Educação tenham tocado alarmes. Não há conspiração aqui - só a rotina britânica de tratar a inação como neutralidade e a neutralidade como virtude.
No fim, talvez a própria Farah Ahmed tenha razão numa coisa: a sociedade ocidental que lhe paga o salário é mesmo, nalgum sentido, corrupta - não pelas razões teológicas que ela invoca, mas porque construiu instituições de elite tão obcecadas em parecer virtuosas que deixaram de perguntar se o são. Cambridge não precisa de mais um inquérito. Precisa de recomeçar a fazer a pergunta mais antiga e menos identitária de todas: isto é verdade, e esta pessoa é competente? Enquanto essa pergunta continuar a soar como uma provocação de direita, o próximo escândalo já está a ser escrito - algures, com toda a certeza, na Faculdade de Educação.
Analista de assuntos internacionais e risco geopolítico, Lecturer