O mundo mudou, o velho continente está a fazê-lo. A Europa já entendeu que não pode contar da mesma maneira com os Estados Unidos. A Europa que há menos de um século teve o quase monopólio da definição da ordem mundial, corre o risco de ser posta à margem da definição da nova se não deixar para trás medos antigos.
Sobre a mesa há três visões do mundo: a visão de Trump, imperial ( que contrasta com a tentação pacifista europeia); a de Macron, gaullista, com os seus pólos e uma Force de Frappe (hoje essencial à segurança europeia) e a de Merz, que é pela unidade do Ocidente. E é Merz quem tem razão. Só que, para que a sua visão tenha futuro, é preciso que convença os outros dois…
À medida que a Europa enfrentou sucessivas crises nas últimas décadas – sobretudo com a agressão russa contra a Ucrânia – muitos europeus perguntaram: «Onde está a liderança de Berlim?». Inquietavam-se mais com uma Alemanha ausente do que dominante. Em 2011, durante a crise financeira, o ministro dos Negócios Estrangeiros polaco Radoslaw Sikorski declarou temer menos o poder alemão do que a sua inércia – afirmação notável vindo de um país historicamente desconfiado de Berlim. Em 2024, o secretário-geral da NATO, Mark Rutte, reforçou a ideia: a Alemanha deve gastar e produzir mais em defesa.
A Zeitenwende anunciada por Olaf Scholz começa finalmente a materializar-se. Em 2025, a Alemanha tornou-se o maior investidor europeu em defesa em termos absolutos; o seu orçamento militar é hoje o quarto maior do mundo, atrás do da Rússia. Até 2029, os gastos poderão ultrapassar 180 mil milhões de euros anuais, mais do triplo de 2022. Discute-se inclusive o regresso do serviço militar obrigatório. Antes de 2030, a Alemanha poderá afirmar-se como grande potência militar.
Mas a ascensão militar alemã pode reacender suspeitas e receios, sobretudo num cenário em que a AfD chegue ao poder. França, Polónia e outros Estados poderiam tentar contrabalançar Berlim, desviando o foco da Rússia e fragmentando a Europa. Paris, em particular, poderia procurar reafirmar-se como principal potência militar continental, abrindo espaço a rivalidade direta com a Alemanha.
Se por um lado Berlim precisa reforçar o seu poder – o continente está ameaçado e nenhum outro governo europeu dispõe da mesma capacidade financeira – por outro deve reconhecer os riscos da militarização. No pós-guerra, Konrad Adenauer recusou transformar a Alemanha numa potência militar independente e integrou-a na NATO. Após a Guerra Fria, o país assumiu-se como ‘potência civil’, confiável e não ameaçadora. Helmut Kohl declarou em 1989 que «só a paz pode vir do solo alemão». A integração europeia consolidou a perceção de interesses partilhados e afastou a competição entre Estados. A velhíssima ‘questão alemã’ está de volta, como é que a dimensão militar do poder iria ser integrada no pensamento alemão que a excluiu desde a queda do Muro?
A solução para que este inevitável crescendo de poder militar não cause desconforto aos parceiros europeus, poderá passar por aceitar ‘algemas de ouro’, expressão do historiador Timothy Garton Ash: limitar a soberania através de maior integração europeia. Berlim deveria apoiar dívida europeia conjunta para defesa, permitindo que países com menos margem orçamental reforcem capacidades sem riscos financeiros excessivos.
Mais ambiciosamente, Europa e Alemanha devem aprofundar a integração militar. Com os Estados Unidos mais retraídos, será necessário desenvolver estruturas complementares à NATO. Embora um exército europeu seja improvável no curto prazo, formações multinacionais maiores e comandos europeus integrados poderiam reforçar a dissuasão e limitar decisões unilaterais alemãs – funcionando inclusive como salvaguarda contra um eventual governo radical
Ao longo de oito décadas, os europeus aprenderam a cooperar de forma antes impensável. Responderam à invasão da Ucrânia pela Rússia com determinação, rapidez e unidade. Foi o primeiro grande erro de cálculo do presidente russo. Quebraram vários tabus, o primeiro dos quais foi dar apoio militar à resistência ucraniana e rearmar-se. A invasão russa reforçou a unidade continental. Com moderação, visão estratégica e integração mais profunda, a Europa pode evitar um dilema de segurança centrado numa Berlim hegemónica à qual não há alternativa.
Analista de assuntos internacionais e risco geopolítico, Lecturer