quinta-feira, 05 mar. 2026

As palavras que ferem precedem os golpes que matam

Após o linchamento do jovem nacionalista de 23 anos Quentin Deranque, levantaram-se vozes para denunciar o tom violento, odioso e antissemita, de muitos discursos do partido La France Insoumise. 

Embora acostumada ao ar viciado  de uma época onde a radicalização medíocre e a violência se tornaram banais, a França está mergulhada num novo turbilhão político, porque a realidade niilista deixou o espaço virtual e o campo semântico e desceu à rua, matando.

Após o linchamento do jovem nacionalista de 23 anos Quentin Deranque, levantaram-se vozes para denunciar o tom violento, odioso e antissemita, de muitos discursos do partido de extrema-esquerda La France Insoumise (LFI). Discute-se mesmo a criação de um cordão sanitário em torno dos radicais de esquerda. 

Questionado sobre o alegado envolvimento da La Jeune Garde, movimento ‘antifascista’ criado pelo deputado Raphaël Arnault, Jean-Luc Mélenchon procura defender-se com a sua arma favorita: a inversão da vítima. Desde o fim de semana que a LFI  aponta o coletivo Némesis, «culpado» – grupo feminista de direita – por ter exibido uma faixa contra a vinda da eurodeputada Rima Hassan à Sciences Po Lyon, e «a polícia que não teria intervindo?» – essa polícia que, segundo eles, «mata». E quem ousa pedir contas à LFI é cúmplice do RN de Le Pen.

Quatro dias após a morte de Quentin Deranque, as investigações permitiram reconstituir uma parte importante do quebra-cabeças. O Ministério Público informou que a polícia havia recolhido «vários depoimentos significativos» e que a investigação, aberta por «violência agravada» e «homicídio voluntário». O procurador da República de Lyon, Thierry Dran, deu uma conferência de imprensa durante a qual mencionou as circunstâncias ultraviolentas da morte do jovem militante identitário. «A autópsia realizada [na manhã de segunda-feira] permitiu determinar essencialmente lesões na cabeça, incluindo um traumatismo cranioencefálico grave e uma fratura temporal direita», explicou ele. E precisou que essas lesões «estavam além de qualquer recurso terapêutico e eram fatais a curto prazo». 

A  violência verbal, a teorização da natureza revolucionária da ação violenta em si mesma e a estratégia da tensão conduzem, mais cedo ou mais tarde, apesar das negações, ao atentado e ao assassinato do inimigo designado. A linguagem ambígua é, de facto, consubstancial às organizações de extrema-esquerda. A LFI não é, aliás, um partido político propriamente dito, mas um ‘movimento’, o que lhe permite, ao mesmo tempo, uma governação autoritária, ou mesmo autocrática, a nível interno, plasticidade ideológica, flexibilidade na ação, capacidade de adaptação ao terreno e total duplicidade. Utilizando métodos variados, que vão desde a influência insidiosa até à violência verbal e mesmo física, este movimento, o seu líder e os seus eleitos exercem uma pressão constante não só sobre os seus parceiros e concorrentes políticos, mas também sobre os meios de comunicação social, o mundo cultural e a população em geral, exacerbando os antagonismos.

E é emblemático que este ataque mortal a um jovem espancado no chão por um bando encapuzado tenha ocorrido nas proximidades de uma reunião da musa ‘antissionista’ Rima Hassan, voluntariamente provocadora, que não hesita em aparecer ao lado de líderes do Hamas. Pois o pro-palestinianismo, que se tornou o catalisador de todos os ressentimentos, é o recurso privilegiado que a LFI usa e abusa. O LFI justificou, por meio de comunicado à imprensa, os massacres do Hamas em 7 de outubro, alegando que Israel conduziria uma política de «colonização» e «apartheid».

Os totalitarismos do passado mostraram que eram capazes, a partir de um pequeno grupo ultraminoritário que inicialmente professava teorias assassinas, inconsistentes, incongruentes ou imbecis, de ganhar eleições seduzindo mentes fracas, mas também outras muito instruídas, e de estender a sua brutalização a toda a sociedade. Revigorada pelo islamismo, incluindo na sua dimensão terrorista assassina, a esquerda autoritária está claramente de volta à ofensiva há duas décadas. Desde os atentados de 2001 da Al-Qaeda contra o World Trade Center (exaltados, se não justificados, na época por Jean Baudrillard e Jacques Derrida), essa tendência retomou a liderança na esquerda. O terrorismo verbal cobre e legitima o terror em ação. Pois, nessa visão islâmico-esquerdista, a violência é, por natureza, revolucionária, seja ela urbana ou rural. 

Analista de assuntos internacionais e risco geopolítico, Lecturer

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