terça-feira, 21 jul. 2026

250 Anos dos EUA, o país imprescindível 

Depois da grande festa e do fogo de artifício dos 250 anos, os EUA vão conseguir continuar a ser a potência dominante ou vão acelerar os sinais de declínio?

É um lugar-comum dizer-se que as eleições nos Estados Unidos têm um impacto tão grande que o resto do planeta também deveríamos poder votar nelas. Da mesma forma sentimos que todos teríamos algo a dizer durante o brinde do 250.º aniversário da sua Declaração de Independência, que se celebra este sábado. Poucos acontecimentos históricos tiveram maiores repercussões nos seculos recentes do que o nascimento dos EUA. 

De Hollywood, a fábrica de sonhos que passou mais de um século a dizer-nos que os EUA uma promessa, uma auto­estrada ao pôr do sol e, nos dias maus, um extra­terres­tre a rebentar com a Casa Branca em Dia da Independência ou falha de Falha de Santo André a tremer, dos frigoríficos duplos a Madonna, da Apple ao X, da Tesla à Ford, de Wall Street à participação nas guerras mundiais , as mudanças sociais, políticas, tecnológicas. Poucos países provocam tantas paixões e admiração como ódio e menosprezo. Ou seja, o impacto global dos Estados Unidos é tão amplo e variado que cada um se fixará no aspeto que mais o fascina – ou que mais aversão lhe causa. Gosto do paradoxo de um país tão habitualmente acusado de ser materialista, inculto e rude ter criado uma quantidade avassaladora de grandes obras literárias. 

‘Grandes’ por serem verdadeiramente excecionais, como escreve no El Mundo David Jiménez Torres, ou por terem tido tanta repercussão que já fazem parte da nossa tradição cultural. Moby Dick, Bartleby, Huckleberry Finn, a poesia de Emily Dickinson, os contos de Poe, Carver, Cheever, Baldwin ou Capote, A Estrada, O Despertar, O Grande Gatsby, Por quem os sinos dobram, O Som e a Fúria, Adeus às Armas, As Vinhas da Ira, Morte de um Caixeiro-Viajante, Uivo, A Redoma de Vidro, Meridiano de Sangue, Submundo, Pastoral Americana, Cidade Aberta... 

O que caracteriza a ‘alma americana’ não é apenas a sua escala, mas a forma como exportou uma ideia: o american dream, a ideia de que o futuro pode ser construído, não herdado. Esta promessa – sedutora e frequentemente contraditória – atravessou mares e continentes através de filmes, música e produtos de consumo. Durante décadas, Hollywood e as grandes redes de televisão funcionaram como a guarda avançada do american way, um modelo cultural que se confundia com a própria modernidade.

Os Estados Unidos continuam a ser a maior economia global e a definir agendas em política externa, tecnologia e defesa. Todavia o seu soft power – essa capacidade de atrair sem coagir – já não é monopólio. E talvez isso seja saudável: um mundo multipolar pode ser mais rico e resiliente.

Depois da grande festa e do fogo de artifício dos 250 anos, os EUA vão conseguir continuar a ser a potência dominante ou vão acelerar os sinais de declínio?

A divisão interna é sem precedentes desde a Guerra Civil, as instituições que serviam de infra­estrutura ao Estado de direito foram convertidas em campo de batalha. A economia esta com febre. No plano externo os aliados deixaram de planear com base em compromissos norte-americanos.

Celebrar os 250 anos da América não significa aplaudir cegamente nem condenar em bloco. Significa reconhecer que, para bem e para mal, a história desse país é também parte da nossa história comum – e que o próximo capítulo está por escrever e o filme por rodar. 

Olhando com frieza à nossa volta : o declínio dos EUA seria o declínio do Ocidente, da Europa e do nosso modo de vida. É preciso cautela com o que se deseja.

Analista de assuntos internacionais e risco geopolítico, Lecturer