segunda-feira, 13 abr. 2026

O cavalo e o porco

Eça de Queirós, um intelectual como então ainda havia, numa metáfora dura, mas certeira, comparava o país a um porco adormecido, à espera de um choque elétrico que o acordasse...

A Apologia de Sócrates, de Platão, é entre todos os livros que li o que racionalmente me ensinou a aceitar mais tranquilamente a inevitabilidade da morte. Nessa obra, Sócrates explica com considerações magistrais as razões exemplares porque, podendo fugir, decidira aceitar a sentença de morte injusta e autofágica que a cidade lhe impusera.

Nesse texto imortal, cuja leitura devia ser obrigatória numa escola digna desse nome, Sócrates compara o intelectual a um moscardo, que pica o cavalo que ė a cidade para levar os cidadãos a reagirem e afirmarem uma vontade esclarecida e responsável. Cito: «(... ) se me matardes, não encontrareis com facilidade outro como eu que se agarre à cidade como um moscardo a um cavalo forte e de bom sangue que por causa do tamanho precisa de ser despertado por um aguilhão. Parece-me que é como se eu me tivesse preso à cidade para que a acorde, convença e exorte cada um de vós durante todo o dia, em qualquer lugar e sem afrouxar o cerco».

Quanto a nós, quanto ao Portugal que somos, continuamos a ser hoje o que desde há séculos temos sido. O nosso atraso endémico – hoje relativamente maior e mais desolador – deve-se a termos ficado no lado errado da linha divisória que separou duas Europas. A do Norte e a do Sul. A do Norte, que aprendeu primeiro a ler, se democratizou antes e se desenvolveu primeiro, e a do Sul, a nossa, que persiste no seu atraso e dependência.

Eça de Queirós, um intelectual como então ainda havia, numa metáfora dura, mas certeira, comparava o país a um porco adormecido, à espera de um choque elétrico que o acordasse...