A derrota de Viktor Orbán nas eleições de domingo tem várias ramificações. Dadas as credenciais de Péter Magyar, a agenda de política interna não sofrerá alterações de maior grau, ainda que as dinâmicas do funcionamento do Estado possam ser alvo de reestruturação. Já a política externa sentirá um impacto maior. Mas, e numa tentativa de evitar o risco de saturação (a cobertura mediática sobre estes aspetos tem sido extensa), nem só as ramificações importam ao analisar a derrota de Orbán. É também uma questão de raízes, de filosofia política.
Orbán montou um regime – em democracia, é certo – iliberal (ou pós-liberal). Poderá parecer um oxímoro, mas a Hungria mostrou que é uma fórmula de poder que pode ser viável. Afinal, o Fidesz manteve-se no poder 16 anos através de eleições e, nas últimas legislativas que serviram como teste do algodão, abandonou-o tranquilamente. Com base nisto, é difícil de disputar que a Hungria é uma democracia. Mas é ao mesmo tempo iliberal porque dinamitou pilares sem os quais as democracias liberais colapsam: para além da colonização dos tribunais, colocando em risco o Estado de direito e a separação de poderes, o Fidesz colonizou também, seguindo a lógica gramsciana de hegemonia cultural, os media e a sociedade. Também o livre mercado e a sua inerente ordem espontânea foram acorrentados e a prosperidade económica ficou refém de um Estado hipertrofiado. E quanto mais alargada for a esfera de competências da administração, mais incentivos são criados para o rent-seeking, ou rentismo, que é, de forma resumida, a tentativa de obtenção de rendimentos não através do mercado, mas através do sistema político.
Naturalmente, o conservadorismo nacionalista europeu e americano via na Hungria de Orbán o último reduto da resistência soberanista. Foi o baluarte da oposição a Bruxelas, uma máquina de triturar soberanias nacionais, e que, mesmo sob pena de penalizações económicas, não vergou perante insensatez coletiva – ou devo dizer comunitária? – da imigração em massa. Estes fatores, aos quais se juntariam certamente mais alguns, fizeram com que alguns conservadores – e aqui falo de um conservadorismo no sentido europeu e não americano – fossem desculpando os vários atropelos a princípios fundamentais de um regime onde a liberdade e a ordem devem andar de mãos dadas. Um liberalismo clássico, se quisermos, que não tem nada que ver com o hiperliberalismo, ou liberalismo progressista, que os conservadores, com razão, criticam. E percebe-se que possa ser tentador, num momento em que estamos todos mais ou menos contaminados pela guerra cultural, marginalizar esses princípios.
Mas o caminho não deve ser esse. Porque, no fundo, as pessoas querem usufruir da segurança em liberdade e com prosperidade. E esta é a lição que os conservadores, europeus e americanos, devem retirar do legado de Orbán. O combate contra o Leviatã de Bruxelas e contra o wokismo deve ser visto como um meio para chegar ao objetivo final – um regime de liberdade ordenada – e não um fim em si mesmo. E para que a crítica conservadora à colonização progressista do Estado faça sentido e conduza a um mundo melhor e mais livre, os conservadores não devem transformar-se, quando têm acesso ao poder, num espelho da esquerda. Dito de outra forma, quando os ventos eleitorais são favoráveis, os conservadores não devem abraçar o que o jornalista americano Gene Healy denomina «Césaropapismo» apenas porque o «César-papa», como escreveu George F. Will, «exerce os seus poderes ilimitados ao serviço das causas que defendem». Porque, se assim for, andaremos todos à mercê de quem, em determinado momento, detém o poder; uns gostando mais, outros menos. E, com isso, acabamos por perder todos.