Não conhecemos o número exato de iranianos assassinados pelo regime dos aiatolas durante os protestos das últimas semanas. 20 mil? 30 mil? É uma questão quantitativa que em nada altera a dimensão moral do massacre perpetrado contra cidadãos cansados de um regime sanguinário que os oprime há quase cinquenta anos.
Então, o Ocidente, que se considera ainda o bastião da democracia e da liberdade, mesmo que embarque em derivas iliberais - algumas estruturais, outras conjunturais -, certamente condena as ações desumanas e tirânicas dos mulás de Teerão em uníssimo e sem “mas”. Este é, decerto, um raciocínio natural. O problema é que é ingénuo. Vejamos o exemplo do Parlamento Europeu.
Na semana passada, foi aprovada uma resolução que visa condenar «a repressão brutal contra os manifestantes no Irão». Os eurodeputados votaram a favor de forma esmagadora. A unanimidade fugiu por pouco, mas fugiu. E por que, e por quem, fugiu? Uma das respostas vem de Portugal. Catarina Martins, eleita pelo Bloco de Esquerda e membro da família europeia The Left, absteve-se. A justificação? O texto da resolução não passa de «propaganda» e, «fosse o conteúdo o que diz o título (…) teria votado a favor». A eurodeputada e ex-candidata à presidência da República acrescenta ainda, através de uma publicação no X, que se trata de uma «hipocrisia máxima», uma vez que «foram chumbadas as emendas para garantir que refugiados iranianos pudessem permanecer na Europa». Por isto, «crueldade e propaganda cada um come a que quer» e, claro, Catarina Martins sublinha: «Eu não quero». Cada um julgará esta justificação como bem entender, mas não poderei deixar de fazer dois ou três comentários.
Primeiro, se estamos perante uma resolução propagandística, por que não votou Catarina Martins contra? Não deverá a propaganda, como elemento negativo da atividade política, ser sempre, e em todo o lado, condenada? Depois, as prioridades da esquerda ficam claras: o que importa é manter na Europa os refugiados iranianos e não exercer pressão para derrubar o regime que condenou os seus cidadãos a esse estatuto. Por último, seria de alguma utilidade se Catarina Martins especificasse que partes do texto são propaganda. Escrever que «as forças de segurança iranianas (…) têm levado a cabo uma repressão violenta e sistemática a nível nacional contra os manifestantes (…) e assassinando e detendo milhares de manifestantes pacíficos» é propaganda? Ou «o Irão continua a aplicar a pena de morte como um instrumento fundamental de repressão para intimidar manifestantes e silenciar a dissidência»? Ou, ainda, «a República Islâmica do Irão tem desempenhado um papel altamente desestabilizador no Médio Oriente e na região em geral, nomeadamente ao apoiar grupos terroristas como o Hezbollah no Líbano, os houthis no Iémen, o Hamas em Gaza e as milícias xiitas no Iraque, e ao estabelecer um eixo de terror que se estende por toda a região»? Os exemplos podiam continuar, mas não me parece necessário. Só Catarina Martins saberá. Ou talvez não, porque não exige grande esforço mental para saber que tipo de crueldade e propaganda, utilizando a expressão da própria, come a eurodeputada.
Para surpresa de muito poucos, as vozes que fazem da “resistência” - um conceito milagroso que serve de bálsamo espiritual para alguns projetos políticos - o seu mot d’ordre estão agora reduzidas ao silêncio. Mas, afinal, ao que resistem? À injustiça, à tirania, à opressão e à espoliação não será. E se pensássemos que seria à avareza e ao grande capital, estaríamos igualmente enganados. Estas atitudes deixam cada vez mais claro que se trata de uma resistência ao bom senso, à lógica e, sobretudo, à civilização Ocidental.