Os EUA começam 2026 com uma intervenção militar. Os venezuelanos começam o ano com a esperança de se tornarem livres. Um povo condenado à miséria, à repressão, à perseguição, à tortura, à morte e ao êxodo consegue agora vislumbrar a luz da liberdade. A procissão ainda vai no adro e a democracia liberal não está garantida nem o chavismo, ainda que cadavérico, está completamente morto, mas um raio de luz é incontestavelmente melhor que a escuridão imposta por mais de duas décadas de Hugo Chávez e Nicolás Maduro.
As manifestações populares que bem espelhavam o descontentamento para com o regime culminaram na vitória da oposição nas urnas no verão de 2024, mas o grito de mudança do povo foi suprimido. A supressão por parte do Partido Socialista Unido da Venezuela, que mereceu o apoio, o silêncio cúmplice, ou uma envergonhada condenação da elite bien-pensant americana e europeia, deve ter sido em nome da Vontade Geral venezuelana contra os interesses estrangeiros. O povo enganou-se, e quem melhor que o socialismo para os corrigir? Nada que uma visita guiada ao centro comercial do Helicoide, em Caracas, não possa resolver. O atropelo aos direitos humanos e às liberdades fundamentais não foi, então, moralmente injustificado.
Moralmente injustificada, isso sim, foi a intervenção cirúrgica americana que acabou por capturar o defensor dos direitos e dos interesses do povo venezuelano. Uma barbaridade cometida em nome dos interesses capitalistas desse antro da desumanidade e da avareza ao qual damos o nome de Estados Unidos da América e do seu novo César, Donald Trump. O facto de que os EUA agiram por interesse nacional para indiscutível. É tão evidente quanto básico na esfera das relações internacionais. E isso é mau? Não necessariamente. Relembremos o que escreveu Jean-François Revel em 2001 (Anti-Americanism): «Obcecados pelo seu ódio e atolados na ilógica, estes ingénuos esquecem-se de que os Estados Unidos, agindo no seu próprio interesse, também estão a agir no interesse de nós, europeus, e no interesse de muitos outros países ameaçados, ou já subvertidos e arruinados, pelo terrorismo».
Voltando às críticas. Que direito tem Washington para remover um tirano responsável por transformar o território num entreposto de droga para os EUA, cabeça de um governo corrupto, ilegítimo, e intimamente ligado ao tráfico de droga e aos rivais geopolíticos dos Estados Unidos, que persegue a oposição democrática e que condenou o seu povo à desgraça? De acordo com muitos dos que fazem parte dos escalões superiores da cultura, especialistas de tudo e de nada, nenhum. Claro.
As cicatrizes de Marx e dos seus discípulos continuam bem visíveis. As dificuldades do povo venezuelano antes descritas são certamente o resultado de um processo de, e para utilizar a expressão de Noam Chomsky, uma das grandes luminárias do anti-americanismo, fabricação de consentimento completamente divorciadas da realidade no terreno. O anti-americanismo, agora fortalecido pelo anti-trumpismo, continua bem vivo nos salões de uma esquerda que, depois de se reassegurar da sua superioridade moral, volta confortavelmente para o seu caviar. Mas há um ponto fundamental: esquecem-se que a sua superioridade moral – essa sim, fabricada – carece de bases sólidas e de bom senso. Está repleta de clichés resultantes de uma lógica infantil que lhes permite proteger-se da dificuldade imposta pelo pensamento sério sobre o mundo real. Voltando a Revel: «[a] incapacidade de explicar os factos nunca impediu uma teoria de prosperar, desde que seja sustentada pela ideologia e protegida pela ignorância. Como sempre, os factos são superados por imperativos psicológicos».
Recomendar-lhes-ia, dos mais extremistas aos mais moderados que olhassem para a alegria dos venezuelanos. Para facilitar, deixo duas manchetes de dois jornais portugueses nos últimos dias: «Alegria, lágrimas e gritos de “liberdade” marcam a reação dos venezuelanos à detenção de Nicolás Maduro» (Correio da Manhã, 3 de janeiro, 2026); «Venezuelanos em todo o mundo festejam detenção de Nicolás Maduro» (Público, 3 de janeiro, 2026).
Mas quando se olha para o mundo através das lentes opacas do anti-americanismo, não é possível admitir que uma intervenção dos EUA, principalmente quando liderados por Trump, foi, quando colocada na balança, benéfica. Porquê? Porque isso exigiria uma módica quantia de honestidade intelectual. Ah, e o direito internacional? Essa questão, extremamente relevante, fica para a próxima semana.