quinta-feira, 14 mai. 2026

Por um novo consenso

Para diminuir a temperatura da política, há que romper com o consenso vigente de que o Estado existe para conferir direitos e não para proteger aqueles que naturalmente possuímos.

A elevada temperatura política é uma marca inegável, ainda que não exclusiva, do nosso tempo histórico. E quando se tem em consideração o caminho que tem sido percorrido pelas democracias ocidentais, o fenómeno não é surpreendente. Quando levamos a cabo uma cruzada pelo engrandecimento do poder político, a vida das pessoas e a sua respectiva esfera de acção individual fica cada vez mais dependente da política. Da educação à saúde, passando pela família e pelo próprio discurso, poucas são as questões da vida quotidiana onde não encontramos uma barreira colocada pelo Estado ou por algum dos seus tentáculos. A lógica é simples: quanto maior a influência do Estado em assuntos que devem pertencer ao campo privado, mais facções e interesses opostos travarão um combate existencial na esfera política, porque o incentivo para o fazer é directamente proporcional.

A polarização, ainda que não seja um fenómeno inerentemente pernicioso, fica assim mais fácil de compreender. Parece-me que o objetivo de reduzir aquilo que está em jogo na política é um lugar mais ou menos comum. Mas só será alcançável se, como escrevi antes, o Estado for reduzido à sua função única e primordial: assegurar os direitos que nos são naturais, entre os quais estão, e repetindo a icónica enumeração da Declaração de Independência dos EUA, a vida, a liberdade e a busca da felicidade.

E é precisamente aqui que reside um dos principais problemas das nossas comunidades políticas: nesta guerra ideológica de trincheira, que não poucas vezes sai da circunscrição do debate e atinge a esfera da violência física, existe, por estranho que possa parecer, um consenso. É o consenso, à esquerda e à direita, de que o Estado representa uma ferramenta ao dispor das várias faccções para que possam impor a sua agenda a partir do topo. Sejam os progressistas ou os nacional-populistas a ocupar o poder em determinado momento, vários pilares que constituem o edifício da liberdade e da prosperidade ficam em xeque. Um deles, sem o qual todas as outras liberdades acabarão por apodrecer, é a liberdade de agência individual, que fica acorrentada pelo dirigismo central.

Então, a solução para baixar a temperatura da política assenta num aparente paradoxo: tornar o ar mais respirável num momento de grande divisão exige uma rutura com um consenso. Margaret Thatcher, dois anos antes de ser eleita primeira-ministra do Reino Unido, dizia a Bill Buckley que as convicções – e a capacidade de persuadir os outros de que as nossas são as melhores –, e não o consenso, são a receita para uma acção política sensata. Persuadir, não impor. O desafio dos liberais clássicos, ou liberal-conservadores, passa precisamente por aqui: persuadir as pessoas de que reduzir as competências do governo não significa retirar-lhe direitos. Pelo contrário, significa devolver-lhes a liberdade para retomarem as rédeas do seu próprio destino através de um Estado que, não sendo alheio ao facto de que existem verdades absolutas e de que a moralidade é objectiva, se quer limitado.

No entanto, não será tarefa fácil. Este consenso alargado é uma realidade porque o discurso estatista, prometendo que o poder político está aqui não para proteger as liberdades das pessoas, mas para as servir e para transformar as suas necessidades em direitos (a famosa freedom from need articulada por FDR), foi bastante eficaz. A liberdade diminui, mas a responsabilidade também, e esse é um trade-off que muitos estão dispostos a aceitar. O oportunismo político, alimentado pela demagogia e disfarçado de compaixão, torna este consenso possível, mas totalmente irresponsável. Por isso, baixemos a temperatura rompendo-o e formando um novo que, permitindo as divergências que são naturais em qualquer sociedade aberta, tem como âncora a liberdade individual. É este o único consenso de que precisamos. E precisamos dele desesperadamente.