sexta-feira, 10 jul. 2026

Política de cativeiro

A imaginação política, que vai sendo suplantada por lugares-comuns, é uma virtude sem a qual as democracias liberais se vão esfarelando. E, essa, sim, está em vias de extinção. 

Seremos nós, cidadãos das democracias ocidentais, os últimos homens? A vitória sobre a União Soviética levou muitos, principalmente muitos líderes políticos, a nutrir o sentimento de ‘o trabalho está concluído, agora resta desfrutar’. O sistema que gerou prosperidade material e igualdade (pelo menos a legal) superiorizou-se de tal forma ao sistema adversário que a sua irresistibilidade era garantida. Estaríamos todos, finalmente, livres da escassez e da repressão e a paz entre povos e nações estaria ali ao virar da esquina. As ideias, as convicções, a moral, o debate e a persuasão eram instrumentos de um mundo que deixara de existir. Teriam interesse arqueológico, é certo, mas passariam a estar despidos de utilidade no mundo da governação.

Os líderes de que agora precisávamos deveriam ser, sobretudo, gestores eficazes. E alguns cumpriram com sucesso esse papel. O que não se percebeu logo foi que estava aberto o caminho para o declínio. Transplantou-se a árvore ocidental para este mundo novo, mas as a raiz ficou para trás. A árvore pode ser a maior e mais robusta, mas sem o elemento fundamental acabará sempre por secar, primeiro, e, depois, morrer. É inevitável.

Os sistemas políticos baseados na liberdade também obedecem a essa inevitabilidade, porque as democracias, como as árvores sem raiz, secam. E as nossas estão secas, tanto na base quanto no topo. Na base, os cidadãos, no geral, tomando as liberdades e conforto material como garantidos – o que revela um profundo desconhecimento da história –, deixam a verdadeira cidadania em segundo plano. O sentimento de pertença a uma nação, a uma comunidade, a uma família e as regras de conduta individual – que implicam constrangimentos, claro – indispensáveis para usufruir da liberdade esbatem-se. No topo, o Ocidente começou a fabricar administradores do status quo para quem um desígnio ou uma visão são aberrações. Afinal, chegámos ao fim da história, e como nada mais deve haver para além disso, para quê maçarmo-nos com essas coisas?

Nietzsche falava do último homem como aquele que se demitiu de qualquer tensão criativa, que repudia o risco e para quem sair da zona de conforto para atingir – ou pelo menos tentar atingir – coisas superiores é uma impossibilidade. E tal como o último homem do Assim Falou Zaratustra, a nossa classe política diz, sem receios: «Nós inventámos a felicidade». A felicidade dos líderes europeus nos últimos anos resume-se a ser moderado, politicamente correcto e, nunca esquecer, um centrista. Estas são as únicas virtudes que cabem na política do século XXI. O resultado desta felicidade fabricada burocraticamente está à vista: mediocridade, relativismo – e decadência – moral, desconfiança nas instituições, irrelevância, incompetência governativa que leva ao aparecimento de movimentos anti-sistema e, naturalmente, um agudizar de tensões sociais. Para Nietzsche, esta degradação antropológica só admitia uma cura: o super-homem. Todos conhecemos o desfecho desta história, e para não a repetir é necessário libertarmos a Política, com P grande, destes grilhões. Porque, como notou uma vez um famoso escritor britânico, «a imaginação, como certos animais selvagens, não se reproduz em cativeiro». Mas, para regressar a estes princípios basilares, o debate político sério é crucial. Os extremismos, e os super-homens, combatem-se e enfraquecem-se na arena das ideias. Limitar-se a dizer que são perigosos é assobiar para o lado, não chega.

A realidade é que hoje temos uma política de cativeiro, que já nasceu amarrada a certos dogmas e que vai sobrevivendo com recurso a lugares-comuns e vacuidades. Estes podem até enganar o estômago, mas não alimentam, e o colapso passa a assumir um estatuto de inevitabilidade. A imaginação política é uma virtude sem a qual as democracias liberais se vão esfarelando. E, essa sim, está em vias de extinção.