quarta-feira, 22 jul. 2026

Os jardins do Ocidente

O resultado de colocar no seio de sociedades abertas os seus inimigos velados, cujo objetivo passa por aproveitar as bênçãos da liberdade para as subverter, não será bonito.

O fatalismo é inimigo da liberdade. Tem uma capacidade anestesiadora que faz com que nos sintamos à mercê da história, que pouco mais temos a fazer senão resignar-nos perante a sua corrente impiedosa. Este sentimento tem duas origens: primeiro, o próprio ensino da história, que tende a secundarizar, quando não mesmo apagar, o papel da agência individual no seu decurso. Se aconteceu, foi porque tinha de acontecer e individuo algum poderia ter feito algo que alterasse um destino imposto por este conjunto de forças impessoais; depois, a crise de identidade e de confiança que mina, de forma mais ou menos geral, o Ocidente. Mas o sentimento não é de agora, é certo.

Se voltarmos à primeira metade do século XX, não é difícil identificar momentos em que o fatalismo se havia tornado um beco sem saída. Pense-se num jovem que tinha 15 anos de idade em 1918. A sua juventude foi marcada pela carnificina da I Guerra Mundial e a sua entrada na vida adulta deu-se num período onde as consequências da Grande Guerra se faziam sentir com vigor. Estas consequências, por sua vez, ajudaram a inflamar as populações que acabariam por procurar refúgio nas promessas de grandeza feitas pelos vários totalitarismos que, por sua vez, acabariam por ser os principais responsáveis pela II Guerra Mundial. Aquele jovem escreveu, em 1949, então já com 46 anos, que tinha chegado «a altura de fecho dos jardins do Ocidente» e que, dali em diante, «um artista será julgado apenas pela ressonância da sua solidão ou a qualidade do seu desespero». O jovem era Cyril Connolly.

Estava errado? A julgar pelas duas décadas seguintes, sim. Por acaso? Dificilmente. A tese de que existiam então bons jardineiros é bastante mais credível. Mas depois chegou o final da década de 1960 e a década de 1970, em que estes jardins voltaram a enfrentar uma crise existencial. Como bem explicou John O’Sullivan no seu livro O Presidente, o Papa e a Primeira-Ministra, as promessas de ‘liberalização’ e emancipação esfumavam-se e o «futuro parecia mais radical que liberal».

Desta vez, a ameaça aos jardins do Ocidente assumia um novo eixo. A ameaça passava a ser também interna, onde vários grupos colaboravam com as forças externas para atingirem o seu objetivo final. A esquerda revolucionária, neo-marxista, niilista, antirracista e assim por diante formava assim uma aliança altamente nociva.

Muitas das teses trágicas não se materializaram. Apareceram indivíduos nas décadas seguintes que conseguiram remar contra a maré, voltando a colocar o Ocidente na rota do crescimento e da clareza moral. Mas as feridas foram profundas, e estão de novo à vista. A imigração em massa e o sentimento de culpa histórica, pela qual nos devemos penitenciar até às últimas consequências, veio colocá-las novamente em evidência e corremos de novo o perigo de embarcar no fatalismo.

No Reino Unido, abafam-se casos de abusos sexuais a menores inglesas porque foram perpetrados por minorias, prendem-se pessoas por ‘crimes de ódio’ e algema-se um jovem que acabava de ser esfaqueado enquanto dizia «I can’t breathe» (soa familiar) porque alegadamente – a BBC já confirmou que o homicida estava a mentir – fez um insulto racista a um Sikh. Em França, as celebrações transformam-se em pesadelo. A lista poderia continuar.

O ódio ao Ocidente espalha-se entre estes grupos porque criaram a perceção de que o Ocidente os odeia e oprime, mas, afinal de contas, o Ocidente, com todos os seus problemas, ainda vai oferecendo a estas pessoas regimes que lhes permitem gozar das maiores garantias de liberdade. É urgente refletir sobre como podemos continuar enquanto sociedade civilizada, porque o resultado de colocar no seio de sociedades abertas os seus inimigos velados, cujo objetivo passa por aproveitar as bênçãos da liberdade para as subverter, não será bonito. Sem convicções, sem promoção da civilidade e sem respeito por todo o edifício ocidental, as portas dos jardins podem mesmo vir a fechar-se. Ou os jardins, como Paris, podem ficar a arder.