O último dia da Ordem Liberal Internacional (OLI), nascida no pós-guerra, parece ter chegado. Para os mais atentos, a surpresa deverá ser mínima, porque há muito que a questão deixou ser “se” e transformou-se em “quando”. A decrepitude era evidente e a morte cerebral, representada pela ineficácia e consequente irrelevância das Nações Unidas, uma certeza. Com a criação do Conselho da Paz – um instrumento que visa esvaziar as instituições multilaterais existentes –, Donald Trump só está a desligar a máquina.
É importante, contudo, notar que foi uma ordem duradoura, principalmente quando comparada com a sua antecessora, a ordem de Versalhes, que estava condenada à nascença e que não ultrapassou a marca dos vinte anos. Revelou-se também bastante resistente aos ventos adversos que sopraram durante a segunda metade do século XX, conseguindo sempre encontrar, com maior ou menor dificuldade, o seu caminho no labirinto da Guerra Fria onde a ameaça nuclear era a novidade. A resistência de um sistema assente em instituições multilaterais não é, de todo, uma tarefa fácil num mundo partido ao meio, no qual as esferas de influência assumiam um papel central na abordagem das duas potências dominantes. E o sistema foi relativamente estável.
Tendo em conta esta resiliência, é natural que agora emirja a necessidade de tentar encontrar fatores explicativos para a flagrante incapacidade desta ordem em resistir à segunda guerra fria (entre os Estados Unidos e a China). É uma questão que admite várias respostas válidas, mas é possível encontrar uma que, avaliando pelas dinâmicas do último século e estando intimamente relacionada com a autofagia das próprias instituições, me parece evidente: o sistema deixou de servir os interesses do seu arquiteto e principal protagonista. Por outras palavras, o liberalismo internacional precisa de uma ordem, e essa ordem, imposta pelos Estados Unidos, deixou de existir. Contudo, este declínio não é apenas fruto do regresso dos EUA ao unilateralismo – muitas vezes justificado, dada a constante letargia e crítica cega de muitos parceiros –, mas também uma consequência dos sucessos de uma ordem que atingiu o seu zenith na década de 1990.
Mas o que importa realmente agora é, mais que insistir nas causas da queda, saber qual será o sistema que está a ser forjado e, igualmente importante, quem o está a forjar. É certo que as esferas de influência voltam a assumir alguma centralidade na discussão, sendo o corolário Trump da Doutrina Monroe – ou Donroe – prova disso mesmo. A ideia é simples: as outras potências devem afastar-se do quintal americano. A pretensões da China em Taiwan e no Mar do Sul da China são apenas uma variação desta mesma abordagem.
Na última edição da Foreign Affairs, o Presidente da Finlândia, Alexander Stubb, desenhou alguns contornos daquilo que nos pode esperar num futuro próximo. A sua tese, aprofundada no livro que lançou na semana passada (The Triangle of Power: Rebalancing the New World Order), apresenta um mundo tripartido, um triângulo do poder. Mas Stubb, ao defender que «cabe ao resto do Ocidente convencer a administração Trump do valor das instituições do pós-guerra e do papel ativo dos Estados Unidos nessas instituições», não esconde o seu otimismo e acredita ser possível fazer ressuscitar a OLI.
Independentemente da ingenuidade de algumas posições e da inaplicabilidade de algumas soluções, é difícil não sentir alguma inveja dos finlandeses ao ler o ensaio do seu Presidente. Deve ser uma excelente sensação ser liderado por alguém que lê, pensa e escreve sobre os grandes temas da atualidade, aqueles que realmente importam, e não se limita a esperar que pensem e decidam, quando decidem, por si.
Portugal está amarrado a Bruxelas, como se os seus interesses e a sua relação com os Estados Unidos fossem comparáveis aos da Alemanha ou da França. E o que parece importar mais nesta antecâmara da segunda volta das presidenciais é apurar se estamos perante uma escolha entre a esquerda radical e a direita anti-socialista, ou entre a democracia e o fascismo. Os candidatos, naturalmente, cavalgarão esta onda. Mas visões estruturais e fundamentadas de mundo e do mundo, que poderiam ser cruciais para quebrar a indecisão de alguns eleitores, nem vê-las.