quarta-feira, 09 set. 2026

O longo braço do socialismo

O perigo atual do comunismo já não é o espetro emanado por Moscovo; agora, vem daqueles que continuam a beatificar repressores no altar de Marx.

De tempos a tempos, a história brinda-nos com curiosidades assinaláveis. A 13 de agosto de 1961, o Governo da República Democrática Alemã começava a construir o infame Muro de Berlim. O Muro da Vergonha, como lhe chamou o então presidente da Câmara de Berlim Ocidental Willy Brandt, foi um dos pontos-chave da Guerra Fria e um reconhecimento explícito do fosso que separava os dois sistemas que foram sendo construídos no território alemão após o pesadelo hitleriano. Trinta e cinco anos antes, no mesmo dia, nascia em Birán, Cuba, Fidel Castro. O interesse da coincidência não carece de explicações mais elaboradas.

No centenário de Castro, vários jornais, comentadores e políticos relembram-nos do «icónico» e «humano» revolucionário que representou a primeira linha de resistência frente ao imperialismo americano. Citado numa peça do Público, Ignacio Ramonet escreveu no prólogo de uma nova biografia de Castro (Fidel Castro: Beyond the Legend) que nesta obra poderemos encontrar «um Fidel Castro profundamente humano: estratega, visionário, às vezes obstinado, amiúde audaz, sempre convencido de os povos podem escrever eles mesmos a sua história, o seu destino». Para alguns serão palavras certamente comoventes. Como não deitar uma lágrima pelo homem por detrás da barba por fazer, da farda verde, do boné, dos charutos e dos Rolex?

Porém, as verdadeiras lágrimas são dos cubanos, 89% dos quais vivem hoje na pobreza extrema (Observatório Cubano de Direitos Humanos, 2025). Foi a este povo que não lhe foi permitido escrever nem a sua história nem o seu destino, ambos arrebatados pelo regime opressor de Fidel Castro e pelo seu Senhor, Moscovo. Mas quando a tirania é exercida em nome do povo e pela revolução contra as bases da civilização ocidental, a admiração da elite bien-pensant e da imprensa é sempre garantida. Como escreveu uma vez Bill Buckley, «basta exigir que o tirano no poder se declare marxista e a guerra de propaganda já está meio ganha».

É precisamente aqui, na guerra da propaganda, que reside um dos maiores perigos do comunismo, mesmo depois da derrota retumbante na Guerra Fria. Na verdade, foi esta derrota que criou um novo perigo. Como escreveu Harry Jaffa no último parágrafo do seu ensaio de 1991 ‘The Long Arm Of Socialism’, «a derrota do comunismo na URSS e nos seus impérios satélites não garante, de forma alguma, a sua derrota a nível mundial. Na verdade, a libertação do Ocidente do seu conflito com o Oriente livra o comunismo utópico interno da suspeita de afinidade com um inimigo externo». «A luta pela preservação da civilização ocidental entrou numa nova fase», concluía Jaffa, uma fase «talvez muito mais mortal e perigosa».

O perigo já não é o espetro comunista emanado por Moscovo; agora, vem daqueles que, vivendo no conforto das sociedades livres que são possíveis precisamente por causa da derrota do comunismo, continuam a beatificar repressores no altar de Marx. E com isto, só perde a liberdade.

Castro dizia que «para os revolucionários, os valores morais superam as armas». A julgar pelo registo histórico, as armas - quer para impulsionar o movimento socialista internacional e tirânico, quer para serem utilizadas contra os dissidentes - foram o aliado mais fiável da revolução. Os valores morais, quando não estavam completamente invertidos - como habitualmente estavam e continuam a estar -, podiam esperar. A história e o dogma marxista não.