O internacionalismo conservador

Em 2025 assistimos a uma clara expansão da internacional conservadora. Em 2026, as previsões apontam para que continue a alargar-se.

Em janeiro de 2025, escrevi uma crónica onde apontei para o facto de a reeleição de Donald Trump ter galvanizado um novo movimento global. Um movimento ao qual, à falta de um termo mais adequado e por motivos de simplificação, podemos dar o nome de conservador.

Um ano depois, a internacional conservadora está ainda mais à vista e o movimento parece consolidar-se em várias geografias. Há um ano, Milei já brilhava na Argentina. Hoje, continua a brilhar. No último ano conseguiu reduzir ainda mais a pobreza e a indigência, domar a inflação, aumentar de forma considerável a atividade económica e, talvez o ponto mais importante porque é a base para que tudo o resto possa ser construído, conseguiu resultados extremamente favoráveis nas urnas; em El Salvador, Bukele continua a deixar o seu país mais seguro com a bem-sucedida perseguição aos gangues. Os tiques autoritários fazem naturalmente levantar algumas sobrancelhas e preocupam qualquer indivíduo que preze a liberdade, mas qualquer indivíduo que preze a liberdade também sabe que esta não é possível quando existem mais de 100 homicídios por cada 100 mil habitantes (dados de 2015); Meloni e Orbán continuam sólidos na Itália e na Hungria; o Rassemblement National continua a liderar as sondagens em França; em Espanha, o Vox cresce e se houvesse eleições hoje o cenário mais provável seria uma maioria absoluta de direita com o PP à cabeça; na Alemanha, o democrata-cristão Merz substituiu o socialista Scholz; em Portugal, as últimas legislativas elevaram o Chega ao estatuto de líder da oposição e existe uma clara maioria de direita na Assembleia; no Chile, a vitória de Kast sobre a comunista Jara é mais um marco importante para o país e um sinal para o continente; no Reino Unido, Badenoch continua empenhada em reavivar o thatcherismo, mas é Farage que lidera por larga margem as sondagens; Sanae Takaichi, admiradora de Thatcher foi eleita primeira-ministra do Japão. Estes nomes e partidos, com uma ou outra exceção, são todos integrantes da grande internacional conservadora que ganhou ímpeto com a eleição de Trump em 2025.

O conceito de ‘internacional conservadora’ pode parecer um claro contrassenso. Afinal, o conservadorismo sempre se opôs aos internacionalismos resultantes do idealismo liberal ou da utopia socialista. Mas, como explicou Henry R. Nau num ensaio publicado pela Hoover Institution em 2008 (Conservative Internationalism), o internacionalismo conservador, que foge às delimitações das duas correntes clássicas das relações internacionais – o idealismo e o realismo – tem raízes históricas robustas: «O internacionalismo conservador encontra validação histórica em Thomas Jefferson, James K. Polk, Harry Truman e Ronald Reagan». «Estes quatro presidentes americanos», escrevia, «fizeram mais para expandir a liberdade no exterior através do uso assertivo da força militar do que quaisquer outros (Lincoln fez o mesmo ou mais para expandir a liberdade internamente pela força). Mas eles expandiram a liberdade em nome do autogoverno, local ou nacional, e não em nome do governo central ou internacional, como defendem os internacionalistas liberais, e usaram a força para aproveitar oportunidades relacionadas para espalhar a liberdade, e não para manter o status quo, como recomendam os realistas».

Podemos, e devemos, questionar-nos quanto às intenções e pretensões internacionais de Donald Trump, mas a verdade é que encontramos muitos elementos deste internacionalismo conservador na sua abordagem à política externa. A utilização da força militar, a crítica às instituições supranacionais como a ONU e o apoio a governos nacionalistas ou patrióticos em várias partes do mundo têm sido os pilares internacionais desta administração.

Trump pode ser mais Nixon que Reagan, mas as circunstâncias dos três são inegavelmente diferentes. E é certo que o presidente americano tem tentado reunir esforços para combater o inimigo comum das direitas (agora personificado pelo wokismo e pelo globalismo), independentemente das grandes diferenças que são inerentes ao movimento conservador. Por tudo isto, 2025 consolidou a internacional conservadora. Para 2026, as previsões apontam para que continue a alargar-se.