terça-feira, 16 jun. 2026

O GOP pós-Trump

Pode parecer cedo para falar da sucessão de Trump. Mas se o GOP quiser regressar às suas origens filosóficas, deve olhar mais para Rubio e DeSantis que para JD Vance.

A escolha de JD Vance como candidato vice-presidencial por parte de Donald Trump foi o consumar de uma ruptura filosófica no Partido Republicano (GOP). A ala conservadora acabava de ser substituída pelo rosto político do nacional-conservadorismo pós-liberal. Recorde-se que, em 2016, Trump escolheu como seu colega de candidatura Mike Pence, um representante daquela ala.

Será cedo para falar da sucessão? Talvez. Trump ainda há pouco cumpriu o primeiro ano do seu segundo mandato e muita tinta correrá nos próximos dois anos e meio. Mas dois anos e meio é pouco tempo quando o assunto é a continuação ou a ruptura ideológica no seio de um partido como o GOP. O VP continua a liderar as preferências para a candidatura em 2028, mas a incontestabilidade parece estar a esfumar-se. E Rubio tem uma forte palavra a dizer, como veremos mais adiante. Mas e se for uma corrida a três? É aqui que entra Ron DeSantis. As probabilidades não jogam a favor do ainda governador da Flórida, é certo. Então, porquê considerá-lo numa possível corrida à nomeação presidencial? Por alguns motivos que ficaram claros na entrevista que o governador deu a Peter Robinson.

DeSantis lidera a Flórida desde 2019. Durante estes sete anos, o Estado da Flórida, até então considerado um dos swing states, tornou-se um reduto republicano. Como? Para o governador, a resposta é simples: uma governação competente e opções políticas claras. De forma muito resumida, houve um crescimento económico rápido e que se prevê que continue acima da média nacional, um aumento da receita mesmo com a redução de impostos (não existe imposto sobre o rendimento), um controlo da dívida pública, e convicções fortes que levaram a Flórida a ser um dos bastiões contra algumas loucuras colectivas que se abateram sobre os Estados Unidos, e sobre o mundo, durante a pandemia.

Mas Rubio, caso seja esse o seu objectivo, tem já uma base mais sólida para uma possível candidatura em 2028. Afinal de contas, não é um pós-liberal nem um MAGA convicto, mas parece ter muito apoio nessa base e consegue, ao mesmo tempo, fazer a ponte com os conservadores clássicos. Na sua breve passagem pelo cargo de secretário de imprensa, um jornalista perguntou-lhe qual é a sua esperança para os Estados Unidos neste momento. A resposta? «A minha esperança para a América é (…) [que] qualquer pessoa de qualquer lugar possa alcançar qualquer coisa, em que não se está limitado pelas circunstâncias do nascimento, da cor da pele, da etnia, mas, francamente, é um lugar onde se pode superar desafios e alcançar todo o seu potencial. (…) Nos EUA não somos perfeitos, a nossa história não é uma de perfeição, mas ainda é melhor que a história de qualquer outra. (…) É uma história de melhoria perpétua. (…) É um país único e excepcional (…) onde cada geração tem feito a sua parte para nos aproximar da realização da visão que os fundadores deste país tinham».

Assim, não é muito difícil entender que as visões de Vance para os Estados Unidos e para o mundo são diferentes das de DeSantis ou de Rubio. Enquanto o primeiro tem uma visão mais nacionalista, céptico do livre comércio e do liberalismo institucional, os dois últimos colocam as suas opções políticas no contexto das premissas e dos axiomas dos Fundadores. E se Vance circunscreve os interesses americanos às fronteiras dos EUA e pode ver o Estado como um instrumento para levar a cabo uma agenda política, Rubio e DeSantis acreditam, como acreditava Reagan, no excepcionalismo americano e num governo limitado que deposita confiança nos indivíduos.

Poderá, com algum destes dois candidatos, o GOP regressar à linha originalista Buckley-Goldwater-Reagan? Não sabemos. A luta será difícil. Mas que ficaria mais perto, bem mais perto, ficaria. E os americanos ficariam melhor. Porque se alguma coisa fez, e a única que pode continuar a fazer, a América grande, foi a liberdade.