Para refutar a tese de que a história é nada mais que uma corrente impiedosa movida por forças impessoais, uma data é suficiente: 4 de Julho de 1776. De facto, há indivíduos que conseguem travar a corrente e outros que a transformam tão radicalmente ao ponto de não regressar a seu estado anterior, para o bem ou para o mal. O conjunto de indivíduos que se reuniram em Filadélfia há 250 anos - guiado pela coragem de Washington, pela magistral pena de Jefferson, e pela inteligência, prudência e clareza de Adams, Madison, e Franklin - pertence ao leque dos que se agarram às circunstâncias históricas e lhes imprimem um novo rumo. E o mundo não voltaria a ser o mesmo depois da Declaração de Independência dos Estados Unidos.
Foi na State House da Pensilvânia, enquanto a Europa ia produzindo as suas luzes, que se acendeu a tocha da liberdade. O liberalismo, entendido no seu sentido clássico - vida, liberdade e propriedade, na formulação de John Locke - acabava de se libertar de velhos vícios europeus para criar um mundo novo no Novo Mundo. Mas criaram os pais fundadores um mundo assim tão novo? Em certa medida, sim. Foi o primeiro Estado da época a quebrar a ligação com a metrópole, um dos únicos povos não governados por qualquer poder hereditário, a primeira comunidade política a construir um sistema baseado na liberdade ordenada e a redigir uma Constituição assente na separação de poderes. No fundo, eram os primeiros a tentar um governo, como Lincon viria a formular mais tarde em Gettysburg, «do povo, pelo povo e para o povo».
A ideia de uns Estados Unidos da América, independentes de Londres, foi radical. Partiu de uma revolução que, dados os abusos da coroa britânica, se tornara inevitável. Dois séculos e meio depois, aquilo que começou como uma experiência de liberdade e de auto-governo não só resistiu ao teste do tempo, como também se transformou na maior potência económica, militar, e tecnológica do mundo num relativamente curto espaço de tempo. Então, o que explica o fracasso do projecto dos revolucionários franceses, contemporâneos dos americanos, que também tinham como objectivo derrubar uma monarquia que se havia tornado tirânica? As diferenças são tão radicais quanto as revoluções, mas podem ser resumidas a uma frase: enquanto os jacobinos tentaram criar, a partir de abstracções e ideias totalitárias, um novo sistema de raiz, livre de qualquer vestígio do antigo, os colonos americanos socorreram-se de uma linhagem política e intelectual milenar. Admiradora, e leitora atenta, da Grécia e de Roma, da Bíblia e do Cristianismo medieval, da Common Law britânica, dos puritanos, e de alguns filósofos liberais contemporâneos como Locke ou Montesquieu, a elite americana debruçou-se sobre as grandes questões que o seu tempo histórico lhe impôs. E fê-lo de forma invulgarmente eficaz.
Não houve uma única chave para este sucesso, mas a chave-mestra terá sido, talvez, a irredutível defesa de que o Homem é dotado, pelo seu Criador, de certos direitos inalienáveis. Direitos estes - vida, liberdade e prossecução da felicidade - que precedem o, em vez de decorrerem do, governo. Este último serve apenas para assegurar os direitos que o Homem já possui naturalmente. Hoje, um tempo no qual o conhecimento da história das nações e das ideias é cada vez mais raro, levando muitos a acreditar que devemos os nossos direitos ao poder político, importa regressar às bases que fundaram os Estados Unidos.
O excepcionalismo americano, não poucas vezes proclamado com doses generosas de arrogância, pode provocar alguma resistência no momento de apreciar o sistema norte-americano. Mas veja-se o seguinte: o projecto dos Estados Unidos foi fundado nos princípios da liberdade, forjado na tempestade da guerra contra o mais poderoso império do seu tempo, viu-se a braços com uma sangrenta guerra fratricida e, sobrevivendo a estas enormes barreiras iniciais, tornou-se na maior potência mundial, sendo responsável por libertar muitos povos europeus das amarras ou do espectro dos vários totalitarismos. Depois de tudo isto, mantém-se de pé. O que é este projecto, senão um projecto excepcional?
Alexis de Tocqueville, que compreendeu a jovem república como ninguém, escreveu que «a grandeza da América não reside em ser mais esclarecida que qualquer outra nação, mas antes na sua capacidade de reparar as suas falhas». A história tem corroborado a observação do pensador francês. Que assim continue.