sexta-feira, 10 jul. 2026

O caminho para a irrelevância

Enquanto todas as outras revoluções foram amplificadoras das potencialidades humanas, a IA, ainda que também o faça, tem o potencial de as reduzir à irrelevância.

Existem momentos na história que alteram de forma radical o modo de vida das sociedades. Foi assim em meados do século XV, quando Gutenberg inventou a imprensa; no século XVIII, quando Watt aperfeiçoou o motor a vapor que permitiu a revolução industrial; no final do século XIX, quando a energia elétrica começou a ser aproveitada em vários sectores; e, claro, mais recentemente, a internet, revolução com a qual estamos todos mais ou menos familiarizados.

A primeira veio produzir textos de forma bastante mais rápida e barata do que aqueles que eram, até então, produzidos à mão pelos monges copistas e iluminadores, permitindo um acesso mais generalizado à informação e ao conhecimento. A segunda, com o foco na produção em massa, reduziu à irrelevância uma série de trabalhos manuais. A eletricidade foi uma machadada no negócio das velas, nos acendedores de candeeiros e nos telefonistas (para não falar de outras ramificações mais fortes na área da eletrónica). Por fim, a internet eliminou barreiras físicas e geográficas e colocou o contacto à distância de um clique. A lista de alterações em termos pessoais, sociais, económicos e laborais seria quilométrica.

Esta tem sido a constante histórica que define as sociedades modernas e que lhes permitiu registar um crescimento económico nunca antes visto e um aumento exponencial da qualidade de vida. Uma constante, ou impulso, pedindo emprestada a expressão que o economista Joseph Scuhmpeter utilizou na sua magnum opus Capitalismo, Socialismo e Democracia (1942), «fundamental que põe e mantém em movimento o motor capitalista» e que provém «dos novos bens de consumo, dos novos métodos de produção ou transporte, dos novos mercados, das novas formas de organização industrial que as empresas capitalistas criam». Trata-se do famoso processo de destruição criativa que era, para Schumpeter, «o facto essencial do capitalismo» e «a envolvente em que todas as atividades capitalistas têm de viver».

Então, a Inteligência Artificial, a revolução dos nossos dias, poderia ser, quando vista do mesmo prisma, apenas mais uma das grandes manifestações deste frenético processo. Mas torna-se cada vez mais difícil fazê-lo. E é difícil por uma simples questão: enquanto todas as outras revoluções funcionaram como amplificadoras das capacidades e potencialidades humanas, esta, ainda que também o faça, tem o potencial de nos superar a um nível tal que as potencialidades humanas podem ficar reduzidas à irrelevância.

É precisamente este alerta que a Anthropic, uma das principais empresas mundiais no campo da IA, lançou na semana passada. «Uma IA capaz de se construir a si própria», escreve, «seria um grande avanço na história da tecnologia (…) mas o autoaperfeiçoamento recursivo total também pode aumentar os riscos de os humanos perderem o controlo sobre os sistemas de IA». «Se os sistemas forem capazes de construir totalmente os seus próprios sucessores», conclui o documento, «as formas como os protegemos, monitorizamos e moldamos o seu comportamento tornam-se muito mais importantes». Não existe paralelo na história da humanidade.

Por fim, vejamos uma declaração de um empregado da Anthropic, que funciona como fiel retrato das proporções que a IA está a tomar: «Nos dias em que tudo corre bem, não consigo deixar de pensar que nada do que faço importa, que tudo está automatizado e é melhor e mais rápido do que eu alguma vez serei. Mas depois há dias em que tudo dá para o torto e eu não percebo porquê, e dou por mim a perceber que já não faço a mínima ideia do que tenho andado a fazer». É devastador.

Se, em 1944, Hayek nos alertou para o caminho para a servidão, hoje o documento da Anthropic mostra-nos que está aberto o caminho para a irrelevância, também ela uma forma de servidão. A grande diferença é que o primeiro sabemos como evitá-lo, o segundo não. Mais, nem sabemos se é evitável. Pelo menos por agora.