A política norte-americana está no olho do furacão. Naturalmente, o assunto que ocupa as páginas dos jornais é a guerra no Irão, as suas causas, a sua legitimidade, as suas consequências e o enigma que continua a ser a sua resolução. Mas a discussão sobre o sistema político dos EUA e a sua respetiva saúde, ou falta dela, não se esgota na política externa e muito menos em Donald Trump, sobre quem, de acordo com o coro dos seus críticos nacionais e internacionais, recai o peso da degeneração democrática e consequente retrocesso da liberdade que assola o país.
No final do mês passado, foi de Los Angeles, Califórnia, que veio a mais forte machadada num dos princípios basilares da tradição norte-americana. Um golpe que o jornalista americano George F. Will não deixou passar em claro. E nós também não devemos deixar.
De forma resumida, o caso foi entre uma jovem de 20 anos e duas grandes empresas tecnológicas – a Meta e a Google –, no qual a primeira, que começou a utilizar o YouTube aos 6 anos e o Instagram aos 9, acusa as últimas de serem as responsáveis pelo seu declínio mental e social. O júri apoiou estas acusações e declarou as empresas culpadas por criarem «intencionalmente plataformas de redes sociais que causam dependência», como reportou a BBC, tendo agora de indemnizar a vítima em 6 milhões de dólares. Will escreveu que esta decisão dilui «a crença fundamental da democracia na autonomia individual», algo que acabará por abrir a porta à «intromissão excessiva do governo».
Will está certo. O ponto não é desvalorizar os perigos das redes sociais e dos seus algoritmos viciantes, principalmente para as crianças. Estas são preocupações reais, justificadas e que passaram a ser uma das prioridades dos pais. É, isso sim, tentar demonstrar que existe um problema com várias camadas.
Uma democracia liberal saudável tem num certo conjunto de virtudes o seu sustento fundamental. Os framers da Constituição dos EUA sabiam-no melhor que ninguém quando, em 1787, guiados pelo seu cepticismo em relação ao poder, blindaram a recém-nascida República contra possíveis líderes desprovidos de virtude. Mas também sabiam que se o corpo político se despe de auto-controlo, de prudência, de moderação e de responsabilidade, o sistema está destinado ao fracasso. Ora, esta decisão mina todas estas virtudes, criando incentivos perversos aos cidadãos, para quem o conceito de responsabilidade individual passa a ser gradualmente mais estranho, esbatendo a sensibilidade baseada na responsabilidade – um dos traços fundacionais do excepcionalismo americano.
Esta deriva paternalista não é recente nem tampouco espontânea. Está alicerçada numa abordagem progressista da ciência política, que se propôs a dinamitar as bases – nomeadamente o direito natural e o individualismo – que fundaram a República norte-americana. E se estamos habituados a que os progressistas modernos escondam esta constante infantilização por detrás do biombo do progresso e através de uma linguagem críptica, como escreveu Will na sua magnum opus em 2019, os precursores desta doutrina foram muito mais claros. Assim escrevia Herbert Croly, (The Promise of American Life, 1909), citado por Will: «o cidadão americano médio não possui as qualidades morais e intelectuais necessárias para uma compreensão séria e coerente das suas responsabilidades enquanto democrata». A distância entre esta premissa e o estrangulamento da liberdade é apenas um pequeno passo.
Para acrescentar algum peso simbólico a esta decisão, o júri de Los Angeles e todos os que festejaram a sua sentença poderiam sugerir uma alteração às icónicas palavras presentes no preâmbulo do documento político mais importantes da modernidade, que passaria a ler-se We The Vulnerable People.