«Tenho o orgulho de anunciar», disse Zohran Mamdani, mayor de Nova Iorque, na passada segunda-feira, «um leque de produtos básicos essenciais que, como seria de esperar, estarão 30% mais baratos nas nossas cinco mercearias geridas pela Câmara Municipal». O aumento do custo de vida é uma preocupação real em Nova Iorque e o preço dos produtos alimentares é, naturalmente, um dos pontos cruciais. Mamdani, um autodeclarado ‘socialista democrático” que sonha com a tomada dos meios de produção, tal como todo o bom e não reacionário amigo da liberdade e da democracia deve fazer, vai criar cinco mercearias geridas pelo município de Nova Iorque para combater este flagelo. É, realmente, uma ideia revolucionária, colocada em prática no passado por regimes igualmente revolucionários como os da União Soviética, da Venezuela, do México e de Cuba.
Mas há uma conta simples que poderá interessar a quem considera esta medida merecedora de aplausos, uma ação corajosa contra a avareza das grandes superfícies. Em Nova Iorque, um galão de leite custa, em média, 4,30 dólares. Assumindo que um supermercado opera com base numa margem de lucro de 2% (a margem de lucro dos supermercados norte-americanos varia entre os 1% e os 3%), o supermercado lucra 0,09 dólares por cada galão de leite vendido. Menos de 10 cêntimos. Com o desconto de 30% prometido por Mamdani, subtraindo os 2% de margem de lucro dos supermercados, sobra-nos 28% do preço. Por isso, a retórica de que a inacessibilidade dos preços reside na ganância dos supermercados, e que um supermercado público, sem a preocupação com o lucro, oferecerá preços acessíveis, é demagógica. Depois, e como não há almoços grátis, alguém terá de suportar os restantes 28% que o consumidor não pagará no ato da compra. A resposta é auto-evidente: o contribuinte, que, pasme-se, também é o consumidor. Ou seja, o Estado ‘oferece’ 30% de desconto às mesmas pessoas que irão pagar esses 30% de outra forma. Os subsídios que terão de ser injetados neste esforço não são nada mais nada menos que dinheiro dos contribuintes.
E estas contas simples não contemplam o vasto leque de variáveis e de incentivos perversos que resultam deste tipo de retórica socialista. Ryan Bourne e Nathan Miller, a escrever para o CATO Institute, explicam. Primeiro, o valor dos subsídios (ainda não anunciado) que será necessário para cortar em 30% os preços dos produtos «vem somar-se aos 70 milhões de dólares destinados à construção das lojas, além da isenção do aluguer e dos impostos prediais nos terrenos cedidos pela Câmara Municipal». Depois, e para além dos efeitos negativos na competição, na variedade da oferta e no aumento do rentismo, o ponto «mais profundo reside nas distorções que os subsídios elevados irão provocar ao longo do tempo»: existirá um «excesso de procura» e abrir-se-ão «oportunidades de arbitrariedade para os revendedores». Resultado? «Prateleiras vazias, limites de compra, clientes a perder tempo à procura de produtos, longas filas e revenda no mercado negro». Isto gerará mais custos relacionados com o fortalecimento dos subsídios e do aumento dos esforços de fiscalização, para além do problema óbvio, sendo que ninguém garante que sejam as famílias mais desfavorecidas a ter acesso aos produtos subsidiados.
Contudo, e ainda que as comparações com outras experiências falhadas deste género - nomeadamente na Venezuela - sejam difíceis de resistir, não parecem existir razões para alarme. A rede de supermercados de Nova Iorque não se transformará num desastre ao estilo da Gastronom na URSS. Não teremos os nova-iorquinos admirados com a abundância dos supermercados do resto do país, ao estilo de Ieltsin na sua visita a uma pequena mercearia no Texas em 1989. Afinal, são cinco supermercados municipais controlados pela Câmara Municipal, não uma rede nacional. Será apenas mais um falhanço da demagogia socialista que, tantos anos depois, ainda acredita - ou tenta fazer com que as pessoas acreditem - que existem almoços grátis. A verdade é que pagarão os mesmos de sempre.