terça-feira, 09 jun. 2026

Mitos e desilusões

Se criar o mito de Sánchez como um novo Churchill é tudo o que a imaginação política da esquerda tem hoje para oferecer às pessoas, talvez isso explique muita coisa.

A história é a nossa melhor aliada para entender o presente e pensar sobre o futuro. Há quem nela participe, quem a escreva, quem a estude e quem consiga a proeza de fazer todas as três em simultâneo. John Adams, fundador e segundo presidente da República americana, foi um desses indivíduos superiores. 

Em 1770, no tribunal de Boston, onde defendeu vários soldados ingleses julgados pelo massacre contra a população na cidade que hoje é a capital do Estado de Massachusetts, a eloquência de Adams fê-lo, mais que ganhar o caso, proferir uma frase que deveria ser inscrita na pedra. «Os factos são teimosos», disse o então advogado perante uma audiência que pedia a cabeça dos redcoats; «e quaisquer que sejam os nossos desejos, as nossas inclinações ou os ditames da nossa paixão, não podem alterar o estado dos factos e das provas». 

Como a história é feita de factos, também ela é uma teimosa por excelência. E como não cede perante os nossos desejos, inclinações ou paixões, há quem prefira dedicar-se ao sempre perigoso exercício de a ‘interpretar’, ‘desconstruir’ e, na fase derradeira, ‘reescrever’. Sempre existiu, nas cabeças mais doutrinárias onde a pureza ideológica se impõe à razão e ao bom senso, essa tentação de tentar vergar não apenas os factos, mas também a imutável natureza humana. No processo, criam-se mitos e teorias que, independentemente do parecer negativo apresentado pela experiência histórica, vão alimentando narrativas que, quando não conduzem as desgraças humanitárias, acabam por ser apenas reduzidas ao absurdo.

É através destas lentes que a elite bien pensant, ou liberal-chic, olha para Pedro Sánchez. Como a realidade é um obstáculo facilmente ultrapassável em nome de um bem maior e mais nobre, acreditam, é possível vê-lo como um exemplo e até compará-lo a grandes estadistas da história. Um presidente do governo que não consegue executar a função para a qual foi eleito – a saber, governar – porque é apoiado por uma maioria artificial que não lhe permite aprovar um orçamento há três anos, que tem a sua esposa, o seu irmão, o seu mentor e o seu círculo político mais íntimo envolvidos em escândalos escabrosos, intermináveis e que dinamitam as bases de um Estado de direito, pode converter-se, assim, numa inspiração. Porquê? Porque decidiu, de forma cínica e puramente oportunista, ser o rosto da oposição a Donald Trump. 

O antiamericanismo é uma patologia da qual a intelligentsia europeia sempre padeceu. Trump, que nas suas cabeças é a reencarnação de Hitler sem bigode e com maquilhagem, só veio agudizá-la. Winston Churchill disse uma vez que se Hitler invadisse o inferno, ele faria pelo menos uma referência favorável ao diabo na Câmara dos Comuns. A esquerda pensa estar a fazer o mesmo. Não contra um tirano que, embriagado pelas doutrinas (com pedigree progressista, aliás) da pureza identitária, se empenhou numa guerra contra a civilização ocidental, mas contra alguém que deixará o poder através de eleições dentro de dois anos. E se para isso for necessário tecer rasgados elogios à figura que mais tem feito pela degradação das instituições democráticas na Europa, que assim seja.

Desta forma, o esquerdismo declara guerra aos factos e tenta criar mais um mito de resistência para não ter de lidar com uma realidade que teima em apresentar-se como madrasta. Não que seja algo novo. Não é. Mas parece tornar-se cada vez mais confrangedor. Se criar o mito de Sánchez como um novo Churchill é tudo o que a imaginação política da esquerda tem hoje para oferecer às pessoas, talvez isso explique muita coisa. A partir do momento em que se torna aceitável passar uma esponja em graves vícios porque existe a ‘virtude’ da resistência a Trump, a culpa deixa de ser inteiramente de Sánchez. 

Mas tal como todos os outros mitos que atingem o mesmo nível de indigência intelectual, este também só poderá, para quem nele realmente acredita, desembarcar num destino: desilusão.