Españolito que vienes / al mundo, te guarde Dios. / Una de las dos Españas / ha de helarte el corazón», são os últimos quatro versos de um poema de Antonio Machado, um dos mais famosos autores da Espanha do início do século XX. Nestas linhas publicadas em 1912, como também já o tinha feito Goya na sua pintura Duelo com mocas no início do século XIX, Machado descrevia as tensões e ruturas no tecido social espanhol que acabariam por desembocar na Guerra Civil duas décadas mais tarde.
E se é verdade que, moldada pelo curso da história, Espanha é agora uma nação diferente daquela representada por Goya e Machado, não deixa de ser verdade que o país continua perante uma divisão difícil de ignorar. Talvez as mocas tenham caído em desuso, mas as trincheiras – políticas, ideológicas e culturais – continuam bem cavadas.
De um lado, vemos Isabel Diaz Ayuso, presidente da Comunidade de Madrid, a receber María Corina Machado, o rosto da oposição ao regime chavista na Venezuela recentemente galardoada com o Prémio Nobel da Paz, na capital espanhola. A recepção na Puerta del Sol, com milhares de venezuelanos em festa, levou Machado às lágrimas. «Hoje», disse a Nobel da Paz, «o mundo inteiro tem os olhos nesta Puerta del Sol, porque sabe que é aqui que hoje iniciamos a nossa viagem de regresso a casa». Ayuso, Alberto Nuñez Feijóo, líder do PP, e Santiago Abascal, líder do Vox, fizeram o mesmo que os outros chefes de Estado e de governo dos países que Corina Machado visitou na Europa. Mas o chefe do Governo espanhol tinha outros planos, ainda que tenha dito que foi a venezuelana a declinar o convite para visitar a Moncloa (vá-se lá saber porquê). Este ‘liberalismo a la madrileña’ de Ayuso não podia contrastar mais com a mensagem – e ação – do socialismo internacional que se passeou por Montjuïc.
Pedro Sánchez, cujas credenciais democráticas não carecem já de mais apresentações, foi o anfitrião de uma internacional socialista em Barcelona. O objetivo, acredita-se, será renovar uma aliança que vai perdendo gás um pouco por toda a parte, até no seu reduto histórico, a América Latina. Mas se algo faltou neste painel de ilustres ‘socialistas democráticos’, foi certamente imaginação política. Da Catalunha – que, por sinal, Sánchez já reconhece como país, a julgar pelas declarações que deu no Congresso dos Deputados na quarta-feira –, chegou-nos pouco mais que uma exibição de teses requentadas, insípidas e que o eleitorado geral se recusa, cada vez mais, a ingerir. O mote foi ‘Em Defesa da Democracia’ contra a perigosa extrema-direita. Se algum socialista ou social-democrata pudesse ter uma réstia de esperança de que o encontro marcasse o primeiro passo rumo a uma reinvenção do socialismo, para além de ingénuo – como pode alguém esperar algo do género de figuras como Sánchez, Lula, Petro ou Sheinbaum? – terá ficado desiludido.
Ainda houve tempo para Sánchez dizer que «a vergonha mudou de lado». Neste caso particular, o líder espanhol está parcialmente certo. Digo parcialmente porque a vergonha, para mudar de lado, teria de ter estado, em algum momento, do seu. E ao contrário da ideia que tem sido passada do secretário-geral do PSOE aqui em Portugal – José Luís Carneiro, veja-se, não se envergonhou ao dizer que Sánchez é uma «inspiração» para o Partido Socialista –, a vergonha não existe no dicionário do sanchismo.
Assim, a fotografia de Ayuso com Corina Machado e a de Pedro Sánchez com os seus compagnons de route internacionais, responsáveis pela degradação da liberdade e do Estado de direito nos seus países, não poderiam ter deixado mais claro que existem, hoje como no passado, duas ideias de Espanha. E não me parece particularmente difícil perceber qual está do lado certo da história.