Caso o calendário eleitoral seja cumprido—e, ao que tudo indica, será—os eleitores espanhóis serão enfrentados com uma escolha decisiva no próximo ano. As eleições do último semestre nas várias comunidades têm sido linhas regionais de uma figura nacional que começa a ganhar uma forma cada vez mais inteligível: o PSOE está em queda livre, o PP vai vencendo sem conseguir maioria absoluta e o Vox, em virtude do seu crescimento eleitoral, será crucial para a formação de uma maioria parlamentar que, não sendo isenta das suas tensões e contradições, encontra no objetivo de romper com o legado de Pedro Sánchez o seu cimento.
Escrevi há algumas semanas neste espaço que existem duas Espanhas, dois projectos políticos separados por um mar de diferenças. Estas duas ideias de país são assumidas sem rodeios tanto pelo PSOE quanto pelo PP, os partidos clássicos do regime democrático espanhol, que vão cristalizando cada vez mais o seu antagonismo. Prova disto são os slogans que começam a ganhar forma na antecâmara das eleições gerais de 2027. Os socialistas preparam-se, como aponta o diário espanhol ABC, para resumir o embate eleitoral ao slogan “democracia vs. autoritarismo”, uma tentativa desesperada, e despudorada, de colar o PP ao que consideram—com uma leveza tanto oportunista quanto irresponsável—ser a “ultra-derecha” representada pelo partido de Santiago Abascal, com quem mantêm vários acordos em certas zonas do território. Por outro lado, a escolha que os populares apresentarão aos espanhóis é entre a democracia e a máfia.
Estas dicotomias são o resultado do desgaste institucional que tem sido infligido pela clique sanchista, e é de tal forma profundo que transforma qualquer tentativa de compromisso ao centro—como fizeram os alemães, com os resultados que estão à vista, ou até os próprios andaluzes até às eleições do passado domingo—numa impossibilidade. O que não é necessariamente mau. Pelo contrário. Porque se alguma coisa provaram, de forma infeliz, os partidos do “centrão” europeu nos últimos anos, é que são competentes no exercício da alternância governativa medíocre e, não poucas vezes, incompetente. Resta saber se a liderança actual do PP, no seio do qual a voz de Ayuso é agora talvez a mais influente, está à altura daquele que será o grande desafio do seu tempo: resgatar um sistema político que está refém das manobras inqualificáveis do sanchismo há demasiado tempo. Os populares precisam, como alertou a presidente da comunidade de Madrid no rescaldo das eleições andaluzas, de «regenerar», não servindo apenas como um substituto. E isso, disse, faz-se com «firmeza, convicção, clareza e confiança naquilo que se faz».
Mas voltemos aos slogans. Se o do PSOE é manifestamente falso, um espantalho já degradado das esquerdas—“todo o adversário é fascista e, consequentemente, um perigo para a democracia”—, o do PP também pode parecer exagerado. Mas será mesmo?
«Zapatero lideró una trama criminal», escreveu o ABC em letras gordas na edição da passada quarta-feira. «Cazado el comisionista internacional Zapatero», disse o El Mundo. «Zapatero, imputado», lançou, de forma notoriamente mais suave, o El País. Ora, se algo é revelado pelas capas dos jornais de referência espanhóis, que se basearam numa decisão judicial, é que o ex-presidente do governo e ex-líder do PSOE liderou uma «estrutura estável e hierarquizada», para utilizar as palavras exatas do acórdão, responsável por tráfico de influências e branqueamento de capitais. Numa palavra, máfia.
Assim, o PSOE, também sequestrado pelo sanchismo, está ferido de morte. E o PP, para libertar o país deste lodo institucional e, sobretudo, moral, terá de apresentar uma alternativa corajosa, reformista, liberal, conservadora, e de ruptura. Ou seja, Feijóo tem de ser muita coisa. Só não pode ser, como muitos são, um mero gestor de declínio que vê na tibieza a maior virtude política do nosso tempo. Não é. E também não o foi noutros tempos históricos. A grandeza encontra repouso num conjunto de virtudes e de convicções, pautando-se pelo bom senso, pela prudência, pela justiça e pela coragem. Disto, e “só” disto, é feita a kryptonite de Sánchez.