Os resultados das eleições locais, em Inglaterra, e das legislativas, na Escócia e no País de Gales, chegam como confirmação eleitoral de algumas dinâmicas políticas que já há muito tinham assumido o estatuto de inevitabilidades. O bipartidarismo dos conservadores e dos trabalhistas, não o bipartidarismo em si, acabou. Não há forma de fugir a esta evidência. O Reform, à direita, e os Verdes, à esquerda, empurraram o centro para uma posição da qual, no mínimo, será difícil de sair e que, no máximo, traduzir-se-á num dilema existencial.
Os conservadores, depois de mais de doze anos medíocres no número 10 de Downing Street, ainda pagam o preço do desgaste governativo e não conseguiram capitalizar o declínio de Starmer, mesmo com uma nova líder, Kemi Badenoch, que poderá imprimir um novo, e mais positivo, rumo ao partido. Mas a grande debacle foi do Partido Trabalhista. Afinal, é o partido de um governo eleito há menos de dois anos. A impopularidade de Keir Starmer, o líder mais impopular dos últimos tempos, levou à perda de 1498 vereadores em Inglaterra, de 35 deputados no País de Gales, ficando reduzido a 9 deputados num país que governou desde o estabelecimento da Assembleia em 1999, e 4 na Escócia. Os conservadores também perderam nos três países, mas a queda foi menos acentuada.
Naturalmente, as taxas de aprovação calamitosas de Starmer junto do eleitorado britânico emitem ondas de choque para a estrutura partidária. Já são 67 os deputados trabalhistas que exigem uma reestruturação, começando, claro, por pedir a cabeça do primeiro-ministro. Como alguém que, acabado de ver os seus braços amputados, tenta nadar contra uma corrente impiedosa, o chefe do executivo diz que irá resistir, não se demitindo e enfrentando qualquer desafio à sua liderança. O próprio, tal como o nadador desesperado, sabe que não vai sobreviver. Será apenas mais uma, e muito provavelmente a última, ilusão defraudada. Ainda assim, no seu discurso de derrota esteticamente orquestrado para transmitir um suposto arregaçar de mangas (agora?), houve espaço para o auto-elogio anti-Trump, esse bálsamo que, mesmo ineficaz, vários líderes socialistas europeus não resistem a usar quando se encontram atolados nas areias movediças da política interna.
Então, a conclusão de que este governo trabalhista tem os dias contados não é resultado de um processo de deliberação necessariamente longo ou complexo. É uma simples evidência. E como bem escreveu Badenoch, o problema não reside apenas no primeiro-ministro, porque «todos os candidatos que disputam o seu lugar também não têm respostas, porque todos acreditam nas mesmas coisas: mais apoios sociais, mais controlo estatal, mais endividamento, mais regulação». E é mesmo este grande problema que leva a líder da oposição a concluir que enquanto os trabalhistas estão «ocupados a discutir quem deve conduzir o carro», não dão conta de que «todos seguem na direcção errada».
É neste ponto que chegamos à questão fundamental que os britânicos terão de enfrentar brevemente: qual é a direcção certa? A dos conservadores sob a liderança de Badenoch, que tenta quebrar com os vícios e com o conformismo no qual o partido caiu regressando aos princípios e às convicções do thatcherismo, seria a mais recomendável. Todavia, o que tem de recomendável não tem, pelo menos num futuro próximo, de provável. O Reino Unido está fragmentado e, ao que tudo indica, confiará os seus destinos a duas possíveis alternativas não tão recomendáveis: de um lado, um Reform que, mesmo tendo colocado temas indispensáveis em cima da mesa, não tem um programa de país sólido, e muito menos reformista; do outro, uns Verdes que, por detrás do biombo do ambientalismo, representam o esquerdismo radical que não faz falta alguma às terras de Sua Majestade. Não sabemos quem será o condutor nem que direcção escolherá seguir. A única certeza é a de que a viagem não será tranquila.