Donald Trump parece ter caído numa armadilha perigosa que poderá ter ramificações verdadeiramente indesejadas a nível político, geopolítico, e económico. Será difícil sair deste ninho de vespas que é a clerocracia iraniana, utilizando a expressão utilizada pelo professor Jaime Nogueira Pinto no seu mais recente artigo para o DN, sem ser picado com alguma gravidade. Não sendo impossível, parece improvável. Porque para não perder a face, Trump necessita de um fato especial, uma armadura que se constrói com princípios aparentemente ausentes – ou apresentados com alguma vergonha no início da intervenção – da abordagem norte-americana.
É verdade que o Presidente dos Estados Unidos declarou, desde logo, a mudança de regime como um dos grandes objetivos do ataque ao Irão. E é um objetivo que não é difícil de justificar. Tanto Israel quanto os EUA identificaram – correctamente, parece-me – no regime iraniano uma séria ameaça aos interesses geopolíticos do Ocidente na região, em particular, e no mundo, de forma geral. Imaginar as consequências que poderiam resultar da obtenção de uma arma nuclear por parte da teocracia sanguinária dos aiatolas não deverá ser um exercício particularmente exigente, pelo que não me parece necessário explicá-las neste espaço, independentemente da crença partilhada pelos isolacionistas de que o interesse nacional está circunscrito às fronteiras de um determinado território. É suficiente dizer que os interesses americanos estão naturalmente em causa na eventualidade um regime anti-americano até à medula, responsável pela constante destabilização do Médio Oriente e uma ameaça constante ao grande aliado dos EUA, conseguir colocar as mãos num instrumento que é indispensável para a perpetuação de tiranias.
Assim, a intervenção americana poderia ser vista do seguinte prisma: uma ofensiva para eliminar uma ameaça clara aos interesses nacionais que, consequentemente, ajudaria a libertar um povo subjugado há quase cinco décadas, não perdendo, contudo, de vista as lições da história recente. E se a moralização extremada da política externa, assente numa cegueira missionária, pode levar a grandes deblaces, como levou no Iraque em 2003, a falta de moralização e a ambiguidade quando os Estados Unidos estão a braços com uma potência como a República Islâmica do Irão pode também gerar efeitos perniciosos. Uma forte defesa da superioridade moral da liberdade e o apoio aos freedom fighters iranianos – à la Reagan – não traria qualquer prejuízo à causa americano-israelita contra o Irão. Pelo contrário, seria fundamental não só para colocar o objetivo da intervenção em águas mais claras, mas também para encorajar o povo iraniano a derrubar o regime, colocando de lado a hipótese sempre temida das boots on the ground. Uma abordagem assim colocaria também os aliados europeus, que agora se resguardam convenientemente no direito internacional, perante uma decisão moral à qual não poderiam facilmente fugir. Dito de outra forma, este conflito podia ser visto como uma guerra cujo objetivo é a paz a médio-longo prazo; um restaurar, através da força, da dissuasão americana junto de potências rivais que pensariam duas vezes antes de atacar os Estados Unidos e os seus aliados (como fez indiretamente o Irão no dia 7 de Outubro de 2023). É deste material que a armadura de que falei acima é feita.
Mas não foi este caminho que Trump escolheu. Não parece haver uma visão clara para o futuro e, pressionado também pelo cepticismo e oposição da sua base eleitoral, o objetivo agora não é outro senão sair o mais rápido possível, independentemente do preço. E se o regime iraniano continuar de pé, o problema deixará de ser apenas uma futura possível capacidade nuclear – uma hipótese que os EUA e Israel têm conseguido enfraquecer consideravelmente com os ataques –, mas será a capacidade de disrupção económica global, também um forte instrumento dissuasor que o regime iraniano talvez não tivesse a noção que possuía. Neste caso, o preço a pagar será muito alto para os Estados Unidos, para a Europa, para o Médio Oriente e, não menos importante, para o povo iraniano.