Se nalguma coisa Lenine acertou, foi quando alegadamente disse, ainda antes da revolução de 1917, que há décadas em que nada acontece e semanas em que acontecem décadas. A primeira semana de 2026 encaixa perfeitamente na segunda categoria. A história continua a marchar a um ritmo frenético e os acontecimentos no Irão tornam inevitável o adiamento da segunda parte das reflexões sobre a Venezuela.
Os iranianos saíram à rua numa demonstração avassaladora de coragem perante o regime tirânico e sanguinário dos aiatolas. Não apenas os iranianos que residem no território, mas também uma boa parte da diáspora. Bandeiras com o Leão e o Sol ao vento e cigarros acendidos no retrato de Khamenei em chamas por mulheres decididas em desfazer-se da opressão representada pelo hijab tornaram-se os grandes símbolos da mais recente onda popular contra a República Islâmica. Os sinais de uma contrarrevolução estão aí, e a brutalidade do regime na supressão das manifestações é prova disso. Entretanto, tem-nos sido dito que a revolta terá sido provocada pelo aumento dos custos de vida. Claro, porque o nível de vida dos iranianos nas últimas décadas tem sido invejável.
E, para além da fraca qualidade jornalística, há o silêncio dos suspeitos do costume – dos humanistas, dos pacifistas, dos feministas e de todos os outros ‘-istas’ – perante um dos regimes mais retrógrados e fascizantes que o mundo tem para apresentar. A este respeito, não há como fugir a um artigo de Richard Falk, professor de direito internacional na Universidade de Princeton, publicado no The New York Times em fevereiro de 1979, duas semanas após o regresso apoteótico do aiatola Khomeini a Teerão. O título, Trusting Kohmeini, é desde logo prometedor e o conteúdo não desaponta. «O presidente Carter e Zbigniew Brzezinski», escrevia o professor Falk, «associavam-no ao fanatismo religioso. Os média difamaram-no de várias maneiras, associando-o a esforços para retroceder 1300 anos no tempo, ao antissemitismo virulento e a uma nova desordem política, o ‘fascismo teocrático’, prestes a ser lançado sobre o mundo». Mas entre a histeria coletiva, Falk conseguiu ver mais à frente: «A descrição dele como fanático, reacionário e portador de preconceitos grosseiros parece certamente e felizmente falsa» (ênfase minha), também porque o facto de «o seu círculo de conselheiros próximos [ser] composto uniformemente por indivíduos moderados e progressistas (…) [que] partilham um historial notável de preocupação com os direitos humanos» era «encorajador». Assim, «tendo criado um novo modelo de revolução popular (…) o Irão pode ainda proporcionar-nos um modelo de governação humana desesperadamente necessário para um país do terceiro mundo». Uma presciência invejável, a do professor Falk.
Cinquenta anos depois, parece que todos os que o professor tentou refutar estavam certos. Quem diria? Mas no início deste ano, agora com 95 anos, Falk olhou para trás e finalmente identificou a causa do fracasso da teocracia islâmica: «Não sabemos o que teria acontecido no Irão (…) se os EUA tivessem respeitado plenamente o exercício do direito à autodeterminação do povo iraniano. (…) O que poderia ter sido pode servir, mesmo que tardiamente, como um sinalizador para o que devia ter sido e, mais esperançosamente, para o que será no futuro!». É a crónica obsessão anti-americana de que nos falava Revel. Pode tardar a ser assumida, mas nunca falha.
Vejamos, por fim, a opinião de alguém que nunca olhou para o mundo através destas lentes. Roger Scruton escrevia no The Times em 1984 que «a monarquia limitada é a melhor forma de governo para o Irão, que só pode ser salvo pela restauração do sucessor legítimo do Xá. Porém, tal resultado seria do interesse não apenas do povo iraniano, mas também do Ocidente. Portanto, poucos jornalistas ocidentais deverão considerá-lo».
Se será este o resultado, ainda não sabemos. Mas é também por isto que os iranianos continuam a protestar com valentia. 1979 não foi, decerto, a finest hour iraniana, como sugeriu Falk. Pelo contrário. Mas 2026 poderá devolver a esperança a um povo, em particular às mulheres, massacrado e oprimido