segunda-feira, 09 mar. 2026

A esquerda e a Lei de Evans

As declarações de Irene Montero são de uma gravidade difícil de qualificar, mas não são surpreendentes quando a insignificância eleitoral destas fações da esquerda é tida em conta.

Em 2000, as Nações Unidas publicavam um relatório intitulado Replacement Migration, onde identificam um dos grandes problemas do nosso tempo histórico: a quebra das taxas de natalidade que, aliada a uma crescente esperança média de vida, seria responsável pelo envelhecimento populacional e, consequentemente, pela preocupante contração da população ativa. Por outras palavras, um verdadeiro e rigoroso inverno demográfico. Na conclusão, o relatório identifica cinco pontos críticos que devem ser tidos em conta, sendo que o último aponta para a adoção de «políticas e programas relacionados com a migração internacional, em particular a migração de substituição, e a integração de um grande número de migrantes recentes e dos seus descendentes». 

Esta foi muito provavelmente a primeira vez que o termo “substituição” utilizado no contexto das migrações entrou em circulação. E se a ONU lhe atribuiu um cunho maioritariamente científico, a ser utilizado dali em diante nos estudos demográficos, foi o escritor e filósofo francês Renaud Camus que lhe outorgou uma dimensão cultural, social e verdadeiramente politizada. Mas analisar estas duas vertentes de forma totalmente separada apenas pela diferença na colocação da ênfase seria pouco rigoroso. Isto porque a segunda surge como uma contestação mais ou menos direta à primeira, que encara a substituição como desejável e necessária.

Em 2011, Camus publicava Le Grand Remplacement: Introduction au Remplacisme Global. Não é essencial nem possível recapitular aqui todos os argumentos de Camus, mas a tese central é relativamente simples: dadas as evidências demográficas antes mencionadas e a imigração crescente de populações cujas taxas de natalidade ultrapassam em larga medida as dos países europeus para os quais emigram, as nações europeias atravessam um processo de regressão identitária que será responsável, no futuro, pela substituição dos seus povos e da sua civilização.

Este diagnóstico não tardou em colher as simpatias dos partidos políticos nacional-populistas, mas a tese da substituição ganhou contornos perigosos quando se tornou também uma das armas no arsenal de movimentos de extrema-direita, que a utilizaram como veículo para o crime. 

É principalmente a partir daqui que um raciocínio que deveria ser tido em consideração e objeto de sérios debates, principalmente nas cúpulas do poder político, foi reduzido ao estatuto de teoria da conspiração supremacista. Com os partidos ditos moderados e centristas, acantonados pela tirania do politicamente correto imposta pela esquerda neo-marxista, a fechar os olhos a um dos temas fraturantes do século XXI, a discussão foi tomada pelo radicalismo das  fações de esquerda e de direita. 

E se esta esquerda tem vindo a justificar a sua posição – mais e mais imigração com menos e menos controlo – com base na sustentabilidade demográfica e económica, ou, de forma mais abstrata, invocando um grande sentido de humanismo que acaba por assentar  numa visão puramente maniqueísta, a máscara parece ter caído. O governo de Pedro Sánchez, para gáudio da extrema-esquerda espanhola, decidiu legalizar pelo menos meio milhão de imigrantes. O êxtase levou Irene Montero, do Podemos, a revelar as suas verdadeiras intenções: «Quero pedir aos imigrantes e pessoas racializadas que não nos deixem sozinhas com tanto fascista. E claro que queremos que votem. Conseguimos os papéis. Regularização já. E agora vamos obter a nacionalidade ou a mudar a lei para que possam votar». Certamente com receio de não ter sido totalmente compreendida, Montero reforçou: «Oxalá, Teoria da Substituição. Oxalá possamos varrer os fascistas e racistas deste país com migrantes, pessoas trabalhadoras. Claro que quero substituição».  São declarações de uma gravidade difícil de qualificar, mas não são surpreendentes quando a crescente insignificância eleitoral  é tida em conta. Jogam, então, o tudo por tudo.

A rejeição contundente nas urnas deixa claro que estas novas ramificações da esquerda, descendentes da Escola de Frankfurt e de outros intelectuais franceses, já não são vistas com bons olhos. Aproveitemos, então, para recuperar a Lei de M. Stanton Evans (1934-2015), jornalista conservador norte-americano: «No matter how bad you think things are, if you look closer you’ll inevitably find it’s worse». Mas a esquerda atual tem facilitado o trabalho a todos os que não professam a sua fé, deixando a sua decadência tão clara que um olhar mais de perto deixou já de ser necessário.

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