segunda-feira, 07 set. 2026

A esquerda e a crença no seu salvador

Os factos não penetram no mundo em que vivem as crenças desta esquerda que, independentemente dos constantes desmentidos, não duvida do talento do seu salvador.

Todos vimos as imagens que nos chegaram de Ceuta na passada quinta-feira. O número, que nunca saberemos com exactidão, de pessoas que cruzou ilegalmente a fronteira para o território espanhol de pouco mais de 80 mil habitantes é avassalador. As estimativas variam entre as 60 mil e as 100 mil, com cerca de uma centena a morrer no processo. Tudo isto são evidências, factos que espelham uma realidade que há muito vem sendo forjada em Espanha. Porém, para alguns, os factos, como praticamente tudo nos dias que correm, não são mais do que meras construções à mercê de uma ou outra crença.

No primeiro volume de Em Busca do Tempo Perdido, Do Lado de Swann, Marcel Proust deixou-nos uma reflexão fundamental para compreender a irracionalidade, que rapidamente se transforma em impermeabilidade, de certas crenças: «Os factos não penetram no mundo em que vivem as nossas crenças; não as fizeram nascer, não as destroem; podem infligir-lhes os mais constantes desmentidos sem as enfraquecer». Por isto, nem «uma avalanche de desgraças ou de doenças que se sucedem sem interrupção» abalaria a crença de uma família na «bondade do seu Deus ou [no] talento do seu médico».

Proust falava do amor e da paixão que pode cegar, mas o que é a política para alguns senão um palco onde um conjunto de paixões cegas se encontra? É na política que os demagogos conseguem provocar exactamente a mesma reacção irracional da sua legião de fiéis. E numa esquerda que se transformou num deserto de ideias, acaba por ser pouco surpreendente que o seu salvador seja Pedro Sánchez, considerado por ela o último reduto do progressismo numa Europa que estará, dizem, assombrada pelo espectro da extrema-direita. E como esta crença não nasceu do ventre dos factos, estes tampouco podem desfazê-la. Não existirão casos de corrupção, abusos de poder, atropelos ao Estado de direito e alianças com facções verdadeiramente extremistas que debilitem a imagem de Sánchez.

A crise em Ceuta é apenas mais um reflexo do legado sanchista, que não demonstra qualquer remorso em sacrificar os destinos de um povo e de uma nação no altar da luta paranoica contra a extrema-direita. No processo, Espanha fica à beira do estatuto de Estado falhado. Se a fronteira é um elemento constitutivo de um Estado de direito, como bem explicou Miguel Morgado, então um Estado que não esteja disposto a protegê-la é um Estado que falhou numa das suas mais elementares funções.

E sendo que o estatuto de membro da União Europeia implica um conjunto de responsabilidades, não é de espantar que 22 Estados-membros, encabeçados por Giorgia Meloni e pela socialista Mette Frederiksen, tenham manifestado preocupações relativamente ao Espaço Schengen, esse pilar fundamental do projecto europeu. Com isto, os acólitos de Sánchez – nacionais e internacionais, na política e nas redacções – indignaram-se perante a falta de solidariedade dos parceiros europeus. Uma falta de solidariedade que, pensam, só poderá ser o resultado da esquerdofobia.

Para estes crentes, o facto de o próprio ter desprezado a solidariedade na questão da imigração não passa de uma fabricação (talvez israelita ou norte-americana). O que aconteceu nesses casos não foi falta de solidariedade. Foi, como ouvi algures, uma política em ‘contra-ciclo’. E, continuam, o argumento de que o Espaço Schengen foi colocado em causa é falacioso porque Ceuta e Melilla não o integram. É verdade. Mas o que acontece aos menores – ou alguns dos adultos indocumentados que se fazem passar por menores – que não podem ser deportados nem mantidos no enclave? Ou aqueles que estão a ser transportados para Algeciras por redes de tráfico humano? Ou a todos os ilegais a quem tem sido prometida a regularização, criando um efeito de chamada irresistível para muitos?

Não esperemos resposta a estas perguntas porque exigiriam uma módica quantia de honestidade intelectual e implicariam um exercício que só seria bem-sucedido quando os factos integram a equação. E, como já sabemos, os factos não penetram no mundo em que vivem as crenças desta esquerda que, independentemente dos constantes desmentidos, não tem capacidade, ou não está autorizada, a duvidar do talento do seu salvador.