O Matuto não precisava de fazer yoga. O Matuto precisava, talvez, de cortar o cabelo, ouvir um jazz, ler um policial, beber um chá… Mas Dona Sirlei havia decidido.
— Faz bem às costas.
As costas do Matuto estavam perfeitamente bem.
— Faz bem à mente.
A mente do Matuto estava, na sua própria avaliação, em ordem.
— Vens comigo e não se fala mais nisso.
O Matuto foi, a bem da harmonia conjugal.
O estúdio ficava numa rua arborizada do centro. Studio Zen — Yoga & Bem-Estar. O Matuto ficou de cara à banda com o nome. Zen era japonês. Yoga era indiano. Bem-estar era português com sotaque de clínica particular. Uma fusão de espiritualidades que provavelmente nunca se haviam encontrado, reunidas numa sala com chão de madeira e velas de baunilha. O Matuto entrou pé ante pé.
A professora chamava-se Karina. Karina tinha o corpo de quem mantinha uma relação cordial com as saladas e a expressão serena de quem resolvera as questões fundamentais da existência numa tarde de sábado.
— Bem-vindos ao espaço — disse Karina, com uma voz que parecia ter sido filtrada.
O Matuto olhou à volta. O espaço era uma sala. O Matuto ficou quieto.
Os tapetes estavam dispostos em filas. Dona Sirlei encontrou o dela com a naturalidade de veterana. O Matuto encontrou o seu com a cautela de quem entra em território desconhecido. Havia uma dezena de pessoas, maioritariamente mulheres, maioritariamente com roupas que custavam mais do que o Matuto supunha ser razoável para fazer exercício no chão.
O Matuto olhou para as suas calças de algodão.
As calças de algodão olharam de volta, sem vergonha.
— Vamos começar em Savasana — anunciou Karina.
O Matuto não sabia o que era Savasana. Olhou para Dona Sirlei. Dona Sirlei já estava deitada no tapete, de olhos fechados, com a placidez de quem chegara a casa. O Matuto deitou-se. Karina pediu que fechassem os olhos e soltassem o peso do corpo.
O Matuto fechou os olhos. Tentou soltar o peso do corpo. O corpo não colaborou, por estar perfeitamente consciente de que estava deitado no chão duma sala que cheirava a baunilha.
— Respirem.
O Matuto respirou. Havia estado a respirar a vida toda sem instruções, mas respeitou o protocolo.
— Soltem a mandíbula.
O Matuto soltou a mandíbula.
— Soltem os ombros.
O Matuto soltou os ombros.
— Soltem os pensamentos.
O Matuto ficou a pensar em como se soltam os pensamentos, o que era em si mesmo um pensamento. Isto complicou a tarefa de forma considerável.
Seguiu-se uma sequência de posições com nomes sânscritos que Karina traduzia para português com a solenidade de quem revela um mistério.
Adho Mukha Svanasana — o cão a olhar para baixo.
O Matuto fez o cão a olhar para baixo. Teve vontade de latir. As costas, que estavam perfeitamente bem, manifestaram uma opinião contrária.
Virabhadrasana — o guerreiro.
O Matuto fez o guerreiro. O guerreiro do Matuto tinha um equilíbrio discutível. Mas sentia-se o último dos samurais.
Vrikshasana — a árvore.
O Matuto fez a árvore durante quatro segundos e depois passou de novo a ser o guerreiro. Melhor ser soldado do que planta.
Karina circulava entre os tapetes com passo silencioso, ajustando posturas com as mãos e sussurrando motivações. Quando chegou ao Matuto, ficou um momento a observar o guerreiro de equilíbrio à la Torre de Pisa.
— Respira para o desconforto.
O Matuto respirou para o desconforto. O desconforto não foi embora. Mas o Matuto respirou.
No final, Savasana outra vez. O regresso ao chão. Karina apagou as luzes e acendeu mais velas. A voz doce regressou.
— O corpo é um templo. Honrem-no.
O Matuto ficou a matutar, no escuro cheiroso, no templo improvisado com chão de madeira e música de flauta tibetana vinda de um altifalante Bluetooth.
O corpo como templo. O Matuto conhecia a ideia. Mas um templo, o Matuto sempre entendera, era um lugar onde se ia em ocasiões especiais, com respeito e sem exageros. O que o mundo parecia querer, ultimamente, era outra coisa — um corpo que fosse simultaneamente templo, obra de arte, projecto de engenharia e cartão de visita. Um corpo optimizado, curvado em posturas milenares, vestido com roupa de tecnologia avançada, fotografado de preferência ao nascer do sol, com filtros do telemóvel, de dentes hiper brancos e lábios penumáticos. O Matuto olhou para o seu corpo no escuro. Nada em si parecia um projecto. Era tão somente o corpinho que Deus lhe dera.
— Namastê — disse Karina.
— Namastê — respondeu a sala, em uníssono.
O Matuto murmurou uma resposta confusa. O Inglês ele dominava, mas isto...
No caminho de volta, Dona Sirlei perguntou:
— Então?
O Matuto considerou a questão com a devida seriedade.
— As costas estão bem — respondeu, por fim.
Dona Sirlei sorriu. As costas do Matuto estiveram sempre bem. Havia batalhas que se ganhavam em silêncio carinhoso. E o Matuto suspeitou que talvez o yoga não fizesse mal às costas. Mas fazer a vontade à Dona Sirlei certamente fazia bem à alma.
Na Casa das Pontes, o Óscar, a lagartixa residente, estava plasmado no muro de cabeça para baixo. Astuto, lança um olhar acrobático ao Matuto. Que posição!
- O que é isso, Óscar?
- É a Oscarasana!
Este Óscar é um atrevido!