O Matuto entra no carro e transforma-se. Há uma metamorfose. Não se sabe ao certo quando isso acontece. Certo e sabido é que o Matuto entra no carro, fecha a porta, ajeita o espelho, liga o motor, coloca o cinto de segurança, ajusta o som da música, e... de repente, fruto de uma ventania malévola, a mutação acontece.
O honesto e pacífico cidadão – sim, porque o Matuto, paga impostos e tem princípios – está agora transfigurado. Foi remodelado num bárbaro que de forma despótica governa o seu minúsculo universo de lata, controlando volante, pedais, botões e usando um português de pedreiro. A mãe, a filha, a irmã, a prima, a sobrinha, a afilhada, a tia, a avó e o gato dos outros condutores que se cuidem. Estão abertas as hostilidades.
A verdade é que ninguém caminha na Baixa Pombalina da mesma maneira que conduz na Baixa Pombalina – considera o Matuto. Se alguém esbarra connosco na rua, pede desculpa. Nós sorrimos, respondemos "não faz mal" e seguimos serenamente o nosso caminho. Dentro dum automóvel, porém, o simples acto de mudar de faixa transforma-se numa questão de honra nacional. Um pisca tardio basta para pôr em causa a genealogia inteira do condutor da frente.
O Matuto, que fora de portas gosta de acreditar que é um cidadão relativamente civilizado, já se surpreendeu a dirigir observações pouco edificantes a criaturas que nunca conheceu e que provavelmente são excelentes pais de família, bons vizinhos que até têm uma tatuagem no braço a dizer “amor de mãe”. Tudo isto porque hesitaram três segundos num semáforo.
Há qualquer coisa de profundamente inquietante nesta metamorfose. Se uma acção tão simples e rotineira consegue produzir estragos éticos tão visíveis, o que aconteceria em circunstâncias verdadeiramente trágicas? – questiona o Matuto. A guerra, o exílio, a fome ou o medo não criam monstros. Limitam-se a retirar-lhes a trela.
O Matuto começou então a desconfiar que o problema talvez não estivesse na condução. O carro é apenas um confessionário ao contrário. Em vez de nos melhorar, revela discretamente o que conseguimos esconder durante o resto do dia.
O habitáculo protege-nos. A chapa, os vidros e o anonimato oferecem uma estranha sensação de impunidade. Debaixo dessa armadura de metal dizemos coisas que nunca diríamos diante duma chávena de chá. Nesse cenário o condutor sente-se invisível. O Matuto suspeita que muitos automobilistas acreditam sinceramente que Deus não olha através dos pára-brisas. Doutra forma seria difícil explicar a confiança com que alguns insultam o próximo ou exploram as cavidades nasais nos semáforos.
O Matuto, que entende das coisas, lembrou-se então dum velho engenheiro francês chamado Max Ringelmann. Homem paciente, decidiu um dia medir a força dos cavalos e acabou por descobrir uma coisa curiosa acerca dos homens. Quando puxavam uma corda em conjunto, cada um trabalhava menos do que trabalharia sozinho. Quanto maior o grupo, menor o empenho individual.
Os psicólogos deram depois um nome pomposo ao fenómeno: "preguiça social". O Matuto prefere chamar-lhe outra coisa: sacudir a água do capote.
O Matuto lembrou-se do célebre caso de Kitty Genovese, em Nova Iorque. Muitos ouviram os seus gritos naquela noite. Quase ninguém chamou a polícia. Não porque fossem monstros, mas porque cada um acreditou que outro o faria. Há pecados que raramente nascem da maldade. Nascem da multidão.
Talvez por isso tantas religiões insistam em lembrar ao homem que nunca está verdadeiramente sozinho. Para uns é Deus quem observa. Para outros, os antepassados. A ideia é sempre a mesma: quando alguém nos vê, comportamo-nos melhor. O Matuto, porém, suspeita que a verdadeira nobreza só se revela quando ninguém está a olhar.
Dostoiévski acreditava que existe um juiz mais severo do que qualquer tribunal. Chamava-lhe consciência. Raskólnikov, em Crime e Castigo, descobre que há crimes dos quais a polícia talvez nunca venha a saber, mas dos quais a alma nunca consegue fugir.
O Matuto gostava que fosse sempre assim.
Porque os radares fotografam a velocidade. As câmaras registam matrículas. Mas só a consciência consegue apanhar um homem a acelerar contra aquilo que sabe ser correcto.
Assim, o Matuto continue a desconfiar dos automobilistas.
Sobretudo daquele que encontra todas as manhãs no espelho, antes de ligar o motor.