terça-feira, 21 jul. 2026

O Matuto e os Sinos

Os sinos deveriam ser como o ruído gratinado dos antigos moinhos que embalavam o sono do moleiro. Ou como o chiar dum comboio (trem, no Brasil, por favor) atravessando a noite. Ou como o coaxar das rãs nos rios. Ou como o cantar dos grilos nas noites de Agosto. Sons de paz. De serenidade. Tranquilos. Toques deslumbrados da aceitação das coisas.

O Matuto acordou. No quintal da Casa das Pontes, as maritacas discutiam em alegre algazarra. Os bem-te-vis chilreavam, miméticos. Um canito latiu. O sino da igreja repicou as sete da manhã. Um raio de sol trémulo de frio esgueirou-se pela janela. Hoje, 21 de Junho, é o solstício de inverno no hemisfério sul. Aqui no Brasil, país que tão generosamente acolheu o Matuto no seu seio, tivemos a noite mais curta e mais gélida do ano (9º).

É domingo. Cronicar é preciso...

O Matuto, com os sinos a badalar devagar por entre as pálpebras sonolentas, pensa no poema de Fernando Pessoa: Ó Sino da Minha Aldeia. Tal como o poeta, vive numa aldeia urbana e sente o soar dos sinos directamente na alma. Mas, ao contrário de Pessoa, ouve badaladas amplificadas por um sistema mecânico de som. O poeta terá escutado o som puro das campânulas na Lisboa de 1914. A aldeia do Matuto é uma cidade moderna do século XXI.

As maritacas continuam o seu alarido. É um casal. Estas aves da família dos papagaios escolhem parceiro para a vida inteira. Fidelíssimas. De plumagem verde e amarela, parecem bandeiras vivas deste Brasil brasileiro. O banzé que fazem denuncia uma passarada inteligente e sociável. Têm sempre assunto.

O Matuto volta ao poema. Daria uma boa crónica? Talvez.

Há gente que se incomoda com os sinos. Invocam a “lei do ruído”. — Devia ser proibido — protesta um vizinho.

Mas o Matuto sabe que ele vê TV aos berros, dá liberdades à buzina do carro a desoras e só adormece à base de stress acumulado ou sob efeito de soporíferos. Para o Matuto, a implicância com os sinos diz mais do estado da sociedade do que qualquer outra coisa. Parece que deixámos de ter a capacidade de ouvir o silêncio. O silêncio não é ausência de som, mas essa respiração nocturna de onde os sons emanam e para onde regressam. Ora, não se pode reclamar por respirarmos.

Talvez o enredo neurótico das nossas vidas exija afundar a cabeça nas almofadas para não escutarmos absolutamente nada – pondera o Matuto. Talvez incomode esta irracionalidade da nossa aversão à lentidão (“dolente”, escrevia Pessoa), ou esta ruína da alma que já não distingue os segredos ciciados dos sons gritados. Pessoa tinha razão ao falar no “eco dentro da alma” que trazia “a saudade para mais perto”.

Na verdade, o Matuto acha que os sinos deveriam ser como o ruído gratinado dos antigos moinhos que embalavam o sono do moleiro. Ou como o chiar dum comboio (trem, no Brasil, por favor) atravessando a noite. Ou como o coaxar das rãs nos rios. Ou como o cantar dos grilos nas noites de Agosto. Sons de paz. De serenidade. Tranquilos. Toques deslumbrados da aceitação das coisas.

O Matuto ajeita a mantinha nos joelhos. O chá a fumegar. Será que temos aqui uma crónica? Quem sabe. Porventura faltará uma história engraçada.

O Matuto leu algures que “ninguém acerta o relógio por um sino”. Repare-se que nem relógio usa. E telemóvel, menos ainda. Minudências. Certinho como os figos a caírem de maduros, é o Matuto acertar os seus afazeres pelos sinos.

Às seis da manhã: chinfrim das maritacas. Às seis e meia: chilreio dos bem-te-vis. Às sete: mantinha nos joelhos. Às oito: uma chávena de chá. Às nove: preparação de aulas. Às dez: mais um chá.

Talvez ninguém acerte o relógio por um sino. Mas o Matuto nunca chegou atrasado a uma chávena de chá.