quarta-feira, 13 mai. 2026

O Matuto e os Provérbios Populares

O Matuto gosta de provérbios populares. Influência do Sr. João, ilustre pai do Matuto, que chegou a coleccionar provérbios para futura publicação. Um adágio que lhe caiu no goto foi: um homem é um homem, e um rato é um rato. Aqui fica patente a diferença entre cobardia e galhardia.

O Matuto gosta de provérbios populares. Influência do Sr. João, ilustre pai do Matuto, que chegou a coleccionar provérbios para futura publicação. Um adágio que lhe caiu no goto foi: um homem é um homem, e um rato é um rato. Aqui fica patente a diferença entre cobardia e galhardia.

E, assim num belo dia de luz, o Matuto é iluminado com a ideia de articular os provérbios ao contrário. De os reformular. Transformar. Virá-los de pantanas... Eis aí, senhoras e senhores, damas e cavalheiros, leitores, cidadãos e habitantes da Via Láctea, uma lista de provérbios matutanos - sem o alto patrocínio da Matutano!!!

Deixe para amanhã o que pode fazer hoje! (como por exemplo, ler esta crónica) A pressa é amiga da perfeição – basta, não ser exigente. Ah, o apressado come cru mesmo! Diz-me com quem andas e dir-te-ei como tirar vantagem da situação! Quem vê caras, vê cabeça, tronco e membros – como é óbvio! Visão raio X, só o Super-homem. Dãããh! Mais vale ter dois pássaros na mão do que um a voar – simples matemática! Água mole e pedra dura, não dá com nada! Quem não tem cão, dorme a sesta com o gato! Isso da caça era com os Neandertais. Cada ‘ma-ca-co’ no seu galho! Agora, não se pode dizer a palavra “macaco”. Sugestão politicamente correcta: cada profissional no seu ramo! Fumar faz bem à saúde... das tabaqueiras! Cavalo à chuva refresca-se! Não há bela sem serão! O seguro morreu de velho, no Palácio de Belém, com dor no joelho! Não cutuque a onça – nem a pessoa sonsa – com vara curta! Deus ajuda quem cedo se põe em fuga! Depois da bonança, vem a tempestade! Esta sim, é a ordem natural das coisas – garante o Matuto. Para mau entendedor nem sendo ginasta com as palavras! A cada grão, dá-se na galinha um sopapo! Zás! Pás! Amigos, amigos, sacerdócios à parte! (o Matuto sabe do que fala) Casa de ferreiro, pá de padeiro! Cão que ladra, também morde! Águas passadas não movem moinhos, nem removem espinhos! Não ponha a carroça – nem a moça – à frente dos bois! Pois, pois! Vão-se os dedos, ficam os anéis! É claro porque o ouro é eterno. E, nenhuma parte do nosso corpo fica cá para semente – pontua o Matuto.

O Matuto, que já não se contenta com o receituário clássico herdado do Sr. João, resolveu atravessar o Atlântico, e sediar-se no Brasil – país que tão generosamente o acolheu no seu seio. Aí, a sabedoria popular tem sotaque tropical. E os provérbios outra cor. Ora, vejam!

Quando o Matuto chegou no Brasil era que “nem cego em tiroteio”. Mas aí, aprendeu. Casa de ferreiro, espeto de pau… mas churrasqueira sempre pronta! Em terra de cego, quem tem um olho é rei… e quem tem dois abre consultório! Quem vê cara não vê coração… mas vê filtro, vê dentes ultra brancos, vê silicones! Farinha pouca, meu pirão primeiro… e o resto que espere sentado! Pimenta nos olhos dos outros é refresco… mas nos próprios é aflição descomunal – garante o Matuto! Quem não arrisca, não petisca… nem sequer belisca um amendoim! Devagar se vai ao longe… desde que não haja engarrafamentos tipo São Paulo! (o Matuto já viu alguns com 50 kms) Água mole em pedra dura tanto bate até que… alguém chama o pedreiro! Quem com ferro fere, com ferro será ferido… salvo se tiver plano de saúde! Quem espera sempre alcança… desde que não adormeça na rede! Quem fala o que quer, ouve o que não quer… sobretudo em dia de nervos! Em briga de marido e mulher, ninguém mete a colher… excepto a vizinha do lado! Filho de peixe, peixinho é… mas há sempre um que sai sardinha fora de lata! Dinheiro na mão é vendaval… desaparece mais depressa que promessa de político! Viajar na maionese... é o desporto favorito do pessoal! Tirar de letra... tudo na boa como em Lisboa! Rodar a baiana... que escândalo! Tirar onda.. tá de sacanagem mano!

O Matuto já viu muita gente “soltar a franga”... desinibir-se demais! O Matuto vê cada “barbeiro” no trânsito, e como bom Português é “um mão de vaca”. Mas “sempre quebra o galho” mesmo quando “chuta o pau da barraca; sem “pirar na batatinha”, nem “pagar o pato”. Nunca “mata cachorro a grito” resolvendo por vezes “ir catar coquinho”. Não bobeia “dando sopa”, ou “dormindo no ponto, nem “leva toco”, nem “dá bola”, por isso não “entra pelo cano”. O Matuto é um moderado portanto “não enfia o pé na jaca”. Por vezes, o Matuto pode “dar uma mancada” e “pisar na bola”, mas ele “descasca o abacaxi”. “bota pra quebrar”, e pensa “bola prá frente”, até “abotoar o paletó”. O Matuto não “muda da água para o vinho”.

O Óscar, a lagartixa residente da Casa das Pontes, “coloca melancia na cabeça”, começa a “babar ovo” e dá uma de “João sem braço”.

Nisto, passa uma mosca.

O Óscar esquece a postura pós-moderna, atira-se a ela — e falha por milímetros.

O Matuto sorri:
— Está visto. Provérbio que é provérbio… não apanha moscas.