sexta-feira, 15 mai. 2026

O Matuto e os Piratas

Mas o pirata favorito do Matuto é Klaus Störtebecker — o Pirata do Elba. É Luís Sepúlveda quem conta a história no livro Rosas de Atacama.

O Matuto sempre gostou de histórias de piratas. A sua infância foi preenchida pelas aventuras do Corsário Negro — o Senhor de Ventimiglia, que se torna pirata para vingar a morte dos irmãos, assassinados pelo governador de Maracaibo; de Sandokan, o Tigre da Malásia; de Long John Silver, de A Ilha do Tesouro, clássico de Robert Louis Stevenson — com aquele “Yo-ho-ho and a bottle of rum” que ainda hoje lhe fica a ecoar na memória..

Lembrava-se de, em Matutinho, subir aos muros da escola, olhar o horizonte do campos verdes de Inglaterra e gritar, sem grande convicção mas com muita imaginação:
— Land ahoy!!!

Mas o pirata favorito do Matuto é Klaus Störtebecker — o Pirata do Elba. É Luís Sepúlveda quem conta a história no livro Rosas de Atacama.

No ano de 1390, a Liga Hanseática impunha, a ferro e fogo, o seu domínio mercantil sobre o Atlântico Norte e o Mar Báltico. Estabelecia impostos absurdos, fixava preços arbitrários para artesãos e agricultores e, nos seus mil barcos, os capitães utilizavam a forca para castigar qualquer falta.

Mas houve quem dissesse que não.

Um grupo de marinheiros, liderados pelo Pirata do Elba — gigantão de rosto feroz e barba vermelha — rebelou-se. Bastava de impostos, de chicote e de corda. Depois de um motim, fizeram-se ao mar sob uma bandeira simples: a da liberdade.

Em 1392, na ilha de Gotland, ditaram a sua declaração de princípios a um sacerdote, que a difundiu pelos dialectos do Norte da Europa: os homens são escolhidos por Deus para praticar a felicidade — e só a felicidade dá a vitalidade necessária para suportar a penúria.

Chamaram-se “Die Vitalienbrüder”, os Irmãos Vitais. E tornaram-se o flagelo da Liga Hanseática.

Abordavam barcos carregados de bens, interrogavam marinheiros acerca dos últimos castigos sofridos e muitos oficiais e capitães sentiram nas suas carnes os arranhões do gato de sete caudas ou o ar mesquinho que a forca permite. O produto do saque era repartido, metade pela confraria e a outra metade pelas populações ribeirinhas do Elba ou das costas do Báltico. Para os pobres a chegada do Pirata do Elba e dos seus Vitalienbrüder, era uma bênção.

Como era de esperar, a Liga Hanseática pôs a sua cabeça a prémio e dúzias de capitães alemães, suecos e dinamarqueses lançaram-se na sua captura. Não foi tarefa fácil, porque o Pirata do Elba conhecia todos os segredos do rio. Resistiu até ao ano de 1400.

Numa manhã de Primavera, toda a Hamburgo juntou-se junto da Teufelsbrücke — a Ponte do Diabo — para assistir à execução do Pirata e de uma centena dos seus homens. O burgomestre, Simon von Utrecht, pronunciou a sentença: morte por decapitação.

O verdugo fez reluzir a espada. Esperava a primeira vítima — um marinheiro raso, pois parte do castigo imposto ao Pirata era assistir à morte dos seus homens.

Então o Pirata da barba vermelha falou: — Quero ser o primeiro, e mais: proponho-lhe um acordo para melhorar o espetáculo, senhor burgomestre. — Fala — ordenou o burgomestre.

— Quero ser o primeiro. Quero ser decapitado de pé, e quero que, por cada passo que eu der depois da minha cabeça tocar no solo, que se salve um dos meus homens.

“Viva o Pirata do Elba!”, gritou a multidão. O burgomestre aceitou. Certamente, era pura fanfarronice.

A ciciante folha de aço cortou o ar da manhã, entrou pela nuca e saiu pelo queixo do Pirata. A cabeça caiu sobre as pranchas da ponte e, perante o espanto de todos, o decapitado deu doze passos antes de cair redondo.

Aconteceu isto numa manhã de Primavera do ano de 1400.

O Matuto adora esta história. Porque, sendo a vida breve e frágil, é a dignidade — e a coragem — que dão ao homem a vitalidade necessária para enfrentar os seus enganos e tramóias.

Ficou um instante bebericando o seu chá preto com um farrapinho de leite.

Shiver me timbers… — murmurou, quase sem dar por isso. Nisto, o Óscar, a lagartixa residente da Casa das Pontes, apareceu na parede.

Avançou. Um passo. Depois outro. Hesitou. Parou. Olhou em volta, medindo os riscos.

O Matuto sorriu: — Ahoy, matey… Não são doze passos… mas também ninguém te está a cortar a cabeça!