quarta-feira, 09 set. 2026

O Matuto e os Males da Existência

As paredes tinham ouvido tudo. Guardado abraços, despedidas, traições, reconciliações e segredos que nunca chegaram aos vizinhos. E agora, nada. Tudo ruína e fumo. Foi então que o Matuto começou a pensar nos males da existência.

O Matuto viu em vídeo a implosão dum edifício enorme.

Vinte quilos de explosivos. Uma construção elegante e moderna reduzida a escombros em segundos. Primeiro, a hesitação. Depois, o estrondo. E a volúpia das guilhotinas: paredes que cedem, andares que se dobram, toneladas de betão transformadas em pó.

O Matuto ficou a olhar. Pensou nos apartamentos. Ali houve amores tórridos, encontros clandestinos, fugas de adolescentes, insónias persistentes, discussões conjugais, gestos nos fios emaranhados da ternura, ciúmes, violência, silêncios, vómitos, hemorragias emocionais, gritos, olhares suicidas, murmúrios atravessando a noite.

As paredes tinham ouvido tudo. Guardado abraços, despedidas, traições, reconciliações e segredos que nunca chegaram aos vizinhos. E agora, nada. Tudo ruína e fumo. Foi então que o Matuto começou a pensar nos males da existência.

O Sr. Rocha, visita letrada das Pontes, anda preocupado com a humanidade. Lê jornais como quem lê boletins médicos: em cada página, mais uma doença da civilização. A Belinha, visita conservadora das Pontes, conhece demasiado bem as pequenas misérias humanas. Está convencida de que o mundo é uma trapalhada. O Marcello, visita reaccionária das Pontes, considera que os tempos modernos inventaram uma coisa profundamente perniciosa: a obrigação de parecermos felizes.

O Matuto ficou a matutar. Vivemos tempos perigosos. Já não explodimos. Implodimos.

Guardamos o que devíamos dizer, disfarçamos o que sentimos, domesticamos o que desejamos. Engolimos a indignação para não incomodar, o medo para não parecermos fracos, o amor para não parecermos ridículos. E admiramo-nos quando aparecem as primeiras fissuras interiores.

Sophia de Mello Breyner escreveu que, “para que um segredo não nos devore, é preciso dizê-lo em voz alta”. O Matuto acha que certas coisas, guardadas tempo demais, ficam pesadas.

Uma vida inteira a fingir que somos outra coisa. Por fora, tudo em ordem. Por dentro, os explosivos já têm morada. E, de repente, pum. Não há edifício, fachada ou varanda. Há apenas pó. Talvez exista uma ética da implosão: saber ruir sem levar os outros connosco.

Há coisas que não podem ser eternamente comprimidas. Palavras que querem sair, dores que precisam de nome, mágoas que, guardadas tempo demais, se tornam arquitectura. Cada qual foge à implosão como pode.

O Sr. Rocha teria uma citação. A Belinha, um bom livro. O Marcello, um cálice de Porto Ferreira Branco. Remédios diferentes para a mesma doença. O Matuto, citando Celan, sabe apenas que “as bocas mentirosas fecham-se na sua baba”. Shakespeare foi cirúrgico: We’re in a pickle. É verdade!

O Matuto olha para o abismo com a mesma resignação que olha para uma torneira a pingar.

— Isto está bonito, está.

E fecha a torneira.