O Matuto cresceu convencido de que as palavras serviam para dar nomes aos bois. Uma árvore era uma árvore. Um jacaré era um jacaré. Uma tempestade era uma tempestade. Um gato era um gato. E um gatuno era um gatuno. Parecia-lhe um sistema perfeitamente funcional.
Ultimamente, porém, começou a desconfiar que os dicionários passaram a ser escritos por departamentos de relações públicas. Já ninguém mente. Constrói narrativas. Ninguém censura. Modera conteúdos. Ninguém despede. Procede a uma reestruturação de recursos humanos. Ninguém falha. Enfrenta desafios. E, ao que parece, também já ninguém invade nada. Apenas procura ‘asilo político’.
O Matuto tentou acompanhar a modernidade. Durante uma semana chamou "evento pluviométrico não solicitado" à chuva. Continuou a molhar-se da mesma forma. Chamou "desafio gravitacional" a uma queda. Continuou a doer-lhe o joelho. Chamou "redistribuição involuntária de património" ao sumiço dum guarda-chuva. O guarda-chuva nunca voltou.
Foi então que o Matuto percebeu uma coisa curiosa: Mudar o nome das coisas não altera a natureza das coisas.
George Orwell, homem pouco dado a floreados, já avisava que a corrupção da linguagem precede quase sempre a corrupção do pensamento. Quando as palavras deixam de iluminar a realidade, acabam por escondê-la. E quando uma sociedade perde a coragem de nomear o que vê, depressa perde também a capacidade de compreender o que lhe acontece.
Naturalmente, o Matuto sabe que os povos sempre caminharam. Abraão foi estrangeiro. Israel conheceu o exílio. O Menino Jesus encontrou refúgio no Egipto. A hospitalidade é uma das mais belas virtudes da civilização cristã. Mas também a prudência é uma velha virtude.
E a prudência começa por chamar as coisas pelo seu nome. O Matuto não desconfia das palavras duras. Desconfia das palavras moles. São elas que costumam esconder os objectos mais contundentes.
Há expressões que parecem almofadas colocadas em cima da realidade para amortecer o impacto. Primeiro muda-se o vocabulário. Depois muda-se a percepção. Finalmente, muda-se a memória. Talvez seja por isso que hoje tantas discussões acabem antes de começar. Já não se debate a realidade. Debate-se o dicionário. Quem escolhe as palavras ganha metade da batalha.
Na Casa das Pontes, porém, a vida continua tranquila. O Matuto, acompanhado do seu chá preto, continua a matutar sobre os males da existência e Dona Sirlei continua a chamar preguiça à preguiça, chuva à chuva e mosquitos a mosquitos. O Óscar, a lagartixa residente das Pontes, também nunca precisou de eufemismos. Quando aparece uma mosca, não lhe chama "insecto em situação de vulnerabilidade". Nem "ser voador em processo de inclusão ecológica". Muito menos "visitante não documentado".
Limita-se a estender a língua. As coisas são como são.