O Matuto não tem dramas capilares. Daí ter ficado assarapantado quando um certo cidadão, careca assumido, apareceu com uma frondosa cabeleira de fazer inveja à Floresta Negra. Parece que longe vão os tempos em que “elas gostavam dos carecas”. Agora até os carecas não gostam de ser carecas e ostentam “próteses capilares” de respeito. O Matuto constata que também vão longe os tempos em que os jovens de Biblos (antiga Fenícia) rapavam o cabelo, em memória do sofrimento do belíssimo Adónis, morto por um javali. Diz a lenda que a deusa Afrodite, apaixonada por Adónis, quando viu o amante ferido correu em seu socorro pela floresta, feriu-se e o sangue que lhe escorria das feridas tingiu as rosas brancas de vermelho.
O Sr. Rocha – a visita letrada das pontes – é careca. Um careca jovial e resolvido. Nele não habita rancor nem qualquer tipo de animosidade em relação à relação à população que exibe as suas melenas, as suas guedelhas. O Sr Rocha incorporaria o fado do Frei Hermano da Câmara: “Era um rapaz de camisola verde, Negra madeixa ao vento, boina maruja ao lado”. Ele habitaria valorosamente o rapaz da “negra madeixa ao vento”. Não teria qualquer síndrome de abstinência.
Todavia, os ventos mudam. O Matuto lembra um tempo em que se usavam expressões como “estou careca de saber”; “careca de esperar”; “descobri-lhe a careca”; “cheque careca”; “pneu careca”... O Matuto recorda ainda Yul Brynner e Telly Savalas, o famoso Kojak, que vestiam a careca de forma elegante e telegénica. Hoje os carecas são mais agressivos, como provam Dwayne "The Rock" Johnson, Vin Diesel, Jason Statham, todos actores de colocar os cabelos em pé a um santo. Mas adiante que se faz tarde!
Visto os carecas não estarem na moda, o Matuto compreende o cuidado com que alguns disfarçam as entradas ou saídas, e o emocionado esmero que colocam na cobertura do “campo sem erva” ou da “pista de aterragem”. Nalguns casos é notório o tratamento das zonas periféricas. É vê-los a pentearem-se de modo a aproveitar ao máximo os tufos de cabelo, esticando-os até ao limite. Nunca desprezam o valor dum rebento peludo! Compram tónicos capilares, submetem-se a massagens do couro descabeludo, e sonham com implantes de jubas leoninas, melenas femininas e crinas cavalares.
Todavia, o Matuto sabe de fonte segura que alguns carecas rendem-se à humilhação da peruca, outros aderem ao boné, numa clara capitulação à sua parca condição cabelame. Nem selva nem relva! Muito triste...
Daí que o Matuto apresente aqui, em primeira mão, as vantagens de ser careca. É uma tentativa de alegrar as hostes calvas. Lá vai!
Em primeiro lugar, num tempo em que hermafroditismos, travestimentos, bissexualidades, assexualidades, num tempo em que os cabelos – assim como as roupas, adornos, trapos, trejeitos corporais e ademanes – já não ajudam a destrinçar sexos, ser careca ainda é uma referência segura e fiável, de que estamos na presença de um homem do sexo masculino. Um portador de gâmetas conhecidos como espermatozoides que contêm 23 cromossomas e que invadindo o óvulo feminino irão formar uma nova criatura, chamada zigoto. As mulheres, no que é dado ao Matuto observar, conseguem estancar a queda de cabelo com umas vitaminas B52 ou B56. É só tomar umas míseras ampolas três vezes por semana, ao almoço e ao jantar, durante um mês e o assunto fica resolvido. É verdade que houve um caso que deu que falar, durante os Óscares, de uma mulher que sofria de alopecia. Poderia ser eflúvio telógeno, ou tricotilomania, ou hipotricose, ou tinea capitis. Ninguém sabe ao certo! Até poderia ser uma variante de alopecia. A areata, a cicatricial, a frontal, a fibrosante... Enfim! Certo é que aquilo acabou no tapa (estalo, em Portugal, por favor). Todavia, na visão do Matuto isso são coisas de filme.
O Matuto pensa que outra vantagem, não despicienda, de ser careca tem a ver com a higiene. Um careca distraído poderá atrair uma mosca ou algum insecto em trânsito. Mas nunca alimentará ectoparasitas, malófagos mastigadores e anaplúros sugadores. Vulgo: piolhos. Portanto, ser careca é ter na alma a imaginação poética, dos cientistas que inventaram estes nomes fascinantes para meros parasitas da penugem humana, sem nunca comprometer o asseio capilar.
Pode não estar na moda, mas a careca ainda distingue o sexo e afasta os piolhos — o que, convenhamos, é uma forma honesta de estar no mundo. As coisas são como são, remata o Matuto.