matuto = diz-se de quem vive no mato e a quem falta traquejo social; caipira; matreiro.
O verbo matutar, significa meditar ou ponderar.
O Matuto gosta de música. O calor sobe pachorrento na ‘Casa das Pontes’. Numa noite de Maio, a conversa vai alta, Bill – a visita liberal das ‘Pontes’ - e Marcello – a visita reaccionária das ‘Pontes’ - esclarecem gostos melómanos. Foi o Bill que levantou a lebre: “o Jazz é a arte musical mais nobre de todas”. É facto que o Bill, foi funcionário público nas prisões de Sua Majestade Isabel II. Também é facto, ter feito fortuna em aplicações de Fundos de Investimento meio manhosas. Fora estes savoir-faire, meio obscuros, não se lhe conhecem aptidões musicais. Por isso esta declaração definitiva é recebida com alguma parcimónia. “Qué isso mermão! E o Chorinho é o Jazz do Brasil” – contrapõe Marcello, o Carioca, para os habitués das ‘Pontes’. “Bullshit” – rasga o verbo o súbdito de Sua Majestade. A discussão estava lançada. Mas, adiante! Fica aqui registado ter sido este o momento do primeiro contacto do Matuto com o Chorinho - género musical Brasileiro que surgiu no Rio de Janeiro, por volta de 1870. Na ‘Casa das Pontes’, o bate-papo segue jovial e animado. Lá fora, a chuva bate tépida e honesta contra as vidraças. Na grafonola, Lobão canta:
Chove lá fora
E aqui 'tá tanto frio
Me dá vontade de saber
Aonde está você?
Me telefona
Me chama, me chama, me chama.
“Tem virada cultural, neste final de semana” – revela Marcello - “vai ter um concerto bem maneiro, lá no Engenho. Coisa de primeiro mundo”. “Jolly good, old fella” – o Bill a caminho do pleno etílico. A curiosidade do Matuto é atiçada: “Caramba! Fala sério!” “Verdade. O negócio é show de bola” – abespinha-se o Marcello. O Matuto e o súbdito de Sua Majestade decidem confiar em Marcello, o Carioca. E, a coisa foi de se lhe tirar o chapéu. Foi memorável. Várias bandas desfilaram pela noite dentro tocando chorinhos em que brilhavam a flauta, violão, pandeiro, piano, clarinete, cavaquinho, bandolim, trombone, acordeão e saxofone. Os chorões – os instrumentistas – de forma versátil revezavam-se nos solos tipo uma jam session de Jazz. Também houve momentos vocais. Marisa Monte cantou a belíssima “Carinhoso” de Pixinguinha – nome que se origina numa corruptela da expressão africana Pezindim que significa “menino bom”.
Meu coração, não sei por quê
Bate feliz quando te vê
E os meus olhos ficam sorrindo
E pelas ruas vão te seguindo
Mas mesmo assim foges de mim
Ah, se tu soubesses
Como sou tão carinhoso
E o muito, muito que te quero
E como é sincero o meu amor
Eu sei que tu não fugirias mais de mim
Vem, vem, vem, vem
Vem sentir o calor dos lábios meus
À procura dos teus
Vem matar esta paixão
Que me devora o coração
E só assim então serei feliz
Bem feliz
E, numa interpretação geniosa e divertida, apresentou-se Julião Boémio. Peças musicais com espírito galhofeiro. O Matuto apreciou devidamente este momento. Galhofa, sem batota, afasta a derrota! Arranjos vibrantes e espirituosos. Superando desafios melódicos e rítmicos, o Matuto percebe, a panóplia de sonoridades que vão se sobrepondo e uma instrumentação pautada por piano com viola caipira, bandolim com violino, cavaquinho com berimbau. Tudo isto deliciosamente costurado sem se perder o fio à meada. Destaque para os saxofonistas; realce para os incomparáveis pandeiros. O Matuto fica pasmado com estes músicos de mão cheia que brincam, desconstroem e reverenciam a rica tradição que os criou. O Matuto pensando: que delícia! E então, Julião Boémio narra o seu chorinho "Pegando Piolho na Rodoviária". Eis aqui o relato do próprio: "Eu ia participar de um concurso em São Paulo e, como estava sem grana, decidi ir de ônibus. Cheguei à rodoviária com muito sono e resolvi tirar uma soneca num dos bancos. Quando acordei, vi que meu cabelo (na época, eu tinha os cabelos bem compridos) estava em cima de um mendigo que dormia no chão. Olhei a cena, entrei no ônibus e fui. No trajeto, minha cabeça não parava de coçar. Quando vi, era piolho!!! A música começa num ritmo ameno, lembrando o momento em que eu estava dormindo e fica acelerada quando o piolho solta, terminando num ritmo agitado, momento em que o piolho dá tchau pelo ralo depois de eu tomar um banho adequado." O Matuto relembra matizes luso-africano-brasileiras que originaram o chorinho. A história começa em 1808, ano em que a Família Real portuguesa chegou ao Brasil. Depois de ser promulgada capital do ‘Reino Unido do Brasil, Portugal e Algarves’, o Rio de Janeiro passou por uma reforma urbana e cultural, quando foram criados muitos cargos públicos. À boleia da corte vieram instrumentos de origem Europeia como o piano, clarinete, violão, saxofone, bandolim, acordeão e cavaquinho e também músicas de dança de salão Europeias, como a valsa, quadrilha, mazurca, modinha, maxixe, minueto, schottisch, xote e, principalmente, a polca; que viraram moda nos bailes da socialite da época. O Matuto, não deseja ser entediante. “Chateação ninguém merece’ – desabafa o estimado leitor. Por isso, adiante! Basicamente, o Chorinho era um estilo de interpretação da música importada. Saltou dos bailes para o bairro e popularizou-se. Quando se deu a abolição da escravatura no Brasil em 1850, estava cozinhado o caldo social que viria a criar uma classe média, composta por funcionários públicos, instrumentistas de bandas militares e pequenos comerciantes, geralmente de origem negra.
O Bill falava alto, empurrando palavras como quem ajeita móveis pesados, e o Marcello gesticulava, elegante, a rir-se das próprias convicções. O Matuto ajeitou a cadeira, tomou mais um gole, e deixou a música entrar por todos os cantos da sala, sem pressa. As palavras tropeçavam umas nas outras, riam-se e recolhiam-se. E o Matuto, com um meio sorriso, pensou que talvez a verdadeira música fosse mesmo ver o Bill a tentar dançar enquanto o Marcello batia palmas fora do compasso.