sexta-feira, 12 jun. 2026

O Matuto e o Café com Cheirinho

Aquela chávena fumegante sempre serviu de desculpa para coisas maiores: conversas perigosas, paixões adiadas, revoluções literárias e melancolias sem nome. O café é, talvez, o mais respeitável dos vícios porque permite ao homem perder tempo com dignidade.

O Matuto é do tempo do ‘café com cheirinho’, esse ritual quase clandestino em que a rotina ganhava brilho de cumplicidade. Havia algo de mágico naquele momento em que o empregado da pastelaria esticava o braço para debaixo do balcão, enquanto nos lábios lhe nascia um sorriso maroto que parecia dizer: “como eu te entendo”. E então dava-se a metamorfose: a mais nobre das pastelarias descia, por um instante, à condição da mais banal das tabernas (boteco, no Brasil, por favor), e o mais distinto dos fregueses convertia-se, sem cerimónia, num virador de copos. Era esse o pequeno milagre que um ‘café com cheirinho’ operava.

Havia, nesse gesto miúdo, qualquer coisa do Café de Rick, em Casablanca. Vem-nos à memória Humphrey Bogart ao balcão, depois de reencontrar Ingrid Bergman: um copo diante de si, o olhar perdido, os dedos pousados com desatenção no vidro, como se ali se condensassem a fadiga do mundo, a ironia dos encontros e o peso inevitável das despedidas. Daí nasce o desabafo eterno: “De todas as tascas, em todas as cidades, em todo o mundo, ela tinha que entrar justamente na minha.”

É nesse instante suspenso — entre o fumo, a penumbra e o rumor dos copos — que o Matuto compreende que um ‘café com cheirinho’ nunca serviu apenas para aquecer o corpo. Servia, acima de tudo, para que a vida descesse mais macia pela garganta.

O Matuto suspeita que o café nunca foi apenas café. Aquela chávena fumegante sempre serviu de desculpa para coisas maiores: conversas perigosas, paixões adiadas, revoluções literárias e melancolias sem nome. O café é, talvez, o mais respeitável dos vícios porque permite ao homem perder tempo com dignidade.

Lembra-se de ouvir alguém citar Mário de Andrade: “o café é a bebida da poesia”. E o Matuto acredita nisso. Há bebidas que servem para esquecer. O café, pelo contrário, serve para lembrar. Um homem bebe um café e, sem saber como, reaparecem amores antigos, os amigos desaparecidos e até certas dívidas que julgava prescritas. Uma aguardente resolve-se depressa; um café prolonga a existência.

Talvez por isso os escritores nunca tenham conseguido fugir-lhe. Balzac bebia dezenas de chávenas madrugada adentro, como se cada gole empurrasse mais um romance para o mundo. Voltaire misturava café com chocolate para alimentar a própria lucidez. E T. S. Eliot confessava ter medido a vida “com colheres de café”. O Matuto acha esta imagem extraordinária: não medir a vida em anos, nem em dinheiro, nem em glórias — mas em pequenas colheres, dessas que tilintam discretamente no fundo da chávena enquanto lá fora a chuva cai sobre cidades cansadas.

Em Portugal, o café tornou-se quase uma instituição filosófica. Parlamentos sentimentais do país. Na Brasileira, no Martinho da Arcada ou no Nicola, havia sempre um poeta encostado ao balcão, um jornalista a escrever e um velho reformado disposto a resolver os problemas da nação entre duas bicas e um pastel de nata. Pessoa multiplicava heterónimos entre o fumo dos cigarros; Eça de Queirós cedo percebeu que a burguesia lisboeta sobrevivia à base de café e mexericos.

O Matuto imagina essas mesas antigas: mármore gasto, colheres tortas, empregados de colete preto, jornais amarrotados, e homens com ar importantíssimo a dizer banalidades

profundas. Porque o café tem esse poder raro: transforma inutilidades em pensamento elevado. Um sujeito entra apenas para “tomar qualquer coisa” e sai convencido de que compreendeu a condição humana.

O Matuto sabe que o “café com cheirinho” acrescentava à existência uma coragem provisória. Depois do primeiro gole, o homem já não era apenas funcionário público, caixeiro-viajante ou reformado. Tornava-se filósofo de balcão, especialista em política internacional, treinador de futebol e poeta ocasional. O álcool fazia o resto: dava à tristeza uma eloquência inesperada.

“No fundo — diz o Óscar, a lagartixa residente da Casa das Pontes, rodando a chávena de café entre as ventosas patitas — metade da literatura portuguesa e três quartos das desilusões amorosas do mundo nasceram exactamente assim: entre um café curto e duas gotas de aguardente servidas com discrição sacerdotal.”