Desconfia de pratos que chegam à mesa com nomes em francês, de colherzinhas inclinadas a 37 graus e de empregados que explicam o doce como se estivessem a traduzir um manuscrito medieval. Tudo isso lhe parece uma alegre algazarra sem substância. Tagarelices!
Ora, o bolo de bolacha não explica nada. Apresenta-se. E isso basta.
Enquanto por aí desfilam sobremesas conventuais de pedigree — a baba de camelo com o seu ar indeciso entre o zoológico e a pastelaria, os ovos moles que parecem concebidos num laboratório barroco de açúcar, a mousse de chocolate com pretensões existenciais — o bolo de bolacha mantém-se firme, silencioso, na sua simplicidade.
Não pede licença. Entra.
O Matuto olha para aquilo como quem contempla uma catedral feita de coisas humildes: camadas e mais camadas de bolacha Maria, essas torres marianas erguidas com disciplina monástica, embebidas num café que não é apenas líquido — é memória, é manhã, é avó, é conversa boa.
Cada bolacha mergulhada é um pequeno batismo. Sai seca, entra mole. Sai banal, entra gloriosa.
E depois há o creme — esse intermediário entre o céu e a colher, que não pretende ser espuma nem arte contemporânea. Está ali para cumprir: ligar, suavizar, redimir.
O bolo de bolacha não quer impressionar. Quer agradar. E agrada como as coisas certas agradam: sem ruído, sem espectáculo, sem a necessidade de um adjectivo estrangeiro.
O Matuto já provou sobremesas com nomes compostos e preços indecorosos. Saiu delas com a sensação de ter assistido a uma palestra. Muito conceito, pouca sobremesa. Já o bolo de bolacha é pura narrativa: começa no café, sobe pela bolacha, resolve-se no creme e termina num silêncio satisfeito. É literatura.
Aliás, se formos honestos, há mais verdade num bom bolo de bolacha do que em metade dos romances contemporâneos. Há estrutura, ritmo e uma espécie de inevitabilidade: uma camada segue a outra porque tem de seguir. Como num bom conto russo — ou numa boa conversa de aldeia.
Os grandes doces literários, note-se, são quase sempre extravagantes.
Veja-se a célebre Madeleine de Marcel Proust: um bolinho modesto, dir-se-á — mas elevado a instrumento de introspecção infinita. Não se molha apenas no chá; mergulha-se na memória, na infância, no tempo perdido. Aquilo já não é sobremesa — é filosofia disfarçada de ciência social (essa alarvidade moderna).
Depois há os banquetes desmedidos de François Rabelais, onde a comida — doces incluídos — serve mais para exibir excesso do que para alimentar. Come-se para conquistar territórios. É gula épica, não é prazer.
E não esqueçamos os chás requintados da Alice no País das Maravilhas, onde bolinhos aparecem e desaparecem, crescem e encolhem, confundem mais do que satisfazem. São doces instáveis, quase traiçoeiros — um perigo ontológico servido em porcelana.
E depois, claro, pondera o Matuto, a grande armadilha moderna: o chocolate da Charlie e a Fábrica de Chocolate. Aquilo até começa bem — rios de chocolate, cascatas de açúcar, uma promessa quase bíblica de abundância. Mas rapidamente se percebe que tudo é uma prova moral. Cada dentada traz um castigo. Um cai no rio, outro transforma-se em mirtilo, outro desaparece num tubo.
Aquilo não é uma fábrica. É um juízo final com cobertura de cacau.
O Matuto coça a cabeça: — Um homem já não pode comer um doce sem arriscar a própria integridade física?
Mesmo quando a literatura tenta ser simples, complica. A sobremesa ganha sempre uma segunda camada: simbólica, psicológica, metafórica. Nunca é só doce.
Ora, o bolo de bolacha faz algo radical. Recusa a alegoria.
Não quer representar a infância — dá infância. Não quer evocar memórias — cria-as. Não quer ser símbolo — é substância.
E depois há a questão metafísica. O bolo de bolacha ensina coisas.
Ensina que o simples pode ser suficiente. Que a repetição não é pobreza — é construção. Que a humildade, quando bem executada, supera o exibicionista.
Enquanto outros doces procuram o aplauso, o bolo de bolacha alcança algo mais raro: o regresso. Volta-se a ele. Sempre. Dá-se a última garfada, paga-se a conta, bebe-se uma amarguinha — mas o relógio biológico já está marcado para a próxima fatia.
É desatino calórico. É destino.
O Matuto, diante de uma fatia bem servida, não discursa. Não analisa. Não fotografa — que mania moderna! Come. E, no fim, declama, com o rigor de quem acaba de confirmar uma suspeita antiga:
— No meio de tanto doce complicado, a verdade continua a vir por camadas. E, curiosamente, sabe a café.