quarta-feira, 13 mai. 2026

O Matuto e o Alegado uso de “alegado”

O que não entende é por que razão um suspeito, entretanto condenado por tentativa de homicídio, continua a ser tratado por “alegado”, visto haver vídeos do ataque e provas abundantes do ocorrido.

O Matuto leu a notícia e começou a resmungar: dois cidadãos israelitas tinham sido barbaramente esfaqueados em Golders Green, no norte de Londres. Depois leu no Guardian sobre o “incidente” e torceu o nariz, começou a gritar.

— “Incidente”…

Por fim, leu no mesmo jornal sobre o “alegado” criminoso — e começou a uivar:

— Ouuuuuhhh.

Na Casa das Pontes, o assunto não morreu ali.

— Agora é tudo “alegado” — disse a Belinha.

— Discutir terrorismo e antissemitismo é como fazer ovos mexidos — explicou o Marcello. — Há uma regra elementar — usar ovos — e depois vêm as variáveis: quantidade e qualidade dos ovos, tempo ao lume…

— …e os ingredientes — atalhou o Sr. Rocha — tomate, cebola, milho…

O Matuto ouviu, em silêncio, conhecedor da receita.

O que não entende é por que razão um suspeito, entretanto condenado por tentativa de homicídio, continua a ser tratado por “alegado”, visto haver vídeos do ataque e provas abundantes do ocorrido. Há imagens do criminoso, de faca em punho, a ameaçar os polícias londrinos:

— “Drop the knife!”

— Mas não — insistiu alguém — é “alegado”.

O Matuto encolheu os ombros.

Há, nisto tudo, uma espécie de jovialidade ululante: quem matou a mãe é um “alegado assassino”; quem tenta fazer explodir crianças é um “alegado bombista”; quem ataca pessoas em mercados de Natal é um “alegado terrorista”. Tudo alegado, tudo provisório, tudo suspenso numa espécie de pudor linguístico.

— O dicionário não complica — disse o Marcello. — “Alegado” é o que não está provado.

Ora, quando há imagens, provas e condenação judicial — que mais falta para sair do alegado e entrar no real?

Mas os sábios da nossa praça (geralmente armados de ciência social e miopia ideológica) revelam um curioso embaraço em dar nome às coisas. Preferem a névoa à nitidez.

— Abel foi uma alegada vítima de Caim — disse a Belinha. — Júlio César terá sido alegadamente assassinado por Brutus — continuou o Marcello. — Abraham Lincoln morreu de um alegado tiro — acrescentou o Sr. Rocha. — John F. Kennedy sucumbiu a alegadas balas. — John Lennon foi morto por um alegado fanático. — Martin Luther King foi assassinado por um alegado opositor.

— O Arquiduque Franz Ferdinand teve uma dor de barriga que serviu alegadamente de estopim para a Primeira Guerra Mundial.

E por aí fora, numa história universal embrulhada em cautelas.

— Alegam-se estes factos como fazendo parte alegadamente da história universal — murmurou o Matuto.

Isto não é saudável nem decente. É apenas um respeito bacoco pela hipótese de nada ser aquilo que claramente é. Na Casa das Pontes fez-se um breve silêncio.

— Então e a solução? — perguntou a Belinha.

O Matuto avançou um passo, como quem finalmente entra na conversa:

— Simples. Dar nome aos bois.

Assassino é um bom nome para quem mata. Pedófilo serve para quem abusa de crianças. Criminoso é a palavra justa para descrever quem comete crimes. E terrorista é o nome adequado para quem ataca Judeus inocentes nas ruas de Londres.

(Pausa.)

O Matuto olhou para todos com ar divertido, bateu duas vezes com os nós dos dedos na madeira:

— Morram os “alegados”. Vivam os “predicados”. PIM!!! PIM!!!