Na verdade, foi Deus quem, contrariando os planos humanos de construir uma torre que chegasse ao céu, embaralhou as línguas e espalhou pelo mundo esta balbúrdia de culturas. Assim brotaram as tribos.
Nisto, estava o Matuto à esquina da padaria, esperando Dona Sirlei, a sua gentil esposa. De repente (não mais que de repente!) um corrupio de sons. Uma roda-viva de gentes. Surge uma limusine de 10 metros com jovens a saltar do tejadilho. Cruzam-se com um bonde antigo iluminado; lá dentro, pessoas dançando como sombras. Luzes. Espelhos. Parecia uma discoteca ambulante dos anos 80. E do nada desabam ali exemplares da raça humana fantasiados de tudo quanto há no universo. Havia bombeiros anões. O Matuto ficou de boca aberta. Afinal eram crianças. Índios americanos. ET’s (com dedo luminoso). Fadas. Harry Potters. Piratas. Sereias. Unicórnios. Bruxinhas. Vampiros. Anjos anafados. O Batman. A Mulher-maravilha. O Matuto percebeu que havia até um departamento daquela tribo dedicado à fauna: onças, tigres, elefantes, leões, crocodilos, papagaios... O Matuto adivinhou subtileza neste grupo ululante. Pertenciam a algum clube desportivo. O motivo da festa era puro mistério. Carnaval é que não era.
Aí o Matuto topa com um grupo de ‘evangélicos’ entoando meio desafinado: “sem Jesus não dá!” Foi quando apareceram os ‘góticos’. Cheios de tatuagens e ostentando piercings nas orelhas, no nariz, nos lábios, no umbigo – e sabe-se lá onde mais! Todos de preto. Cada tribo com a sua liturgia.
Tanta tribo. Tanta pluralidade. Cada uma com os seus costumes contrastantes.
Pelo rabo do olho o Matuto vê Dona Sirlei sair da padaria. Ela dá de caras com uma senhora elegante ladeada por um belo cão labrador, e uma cachorrinha.
- É uma Shih-tzu ou Lhasa – pergunta embevecida Dona Sirlei.
- É uma Shih-tzu, colega! - responde altaneira a dama chique. As Lhasas têm o focinho maior.
- Que graça! Dona Sirlei faz uma festa na bichinha. A cauda abanava que nem um leque desgovernado.
Esta é outra tribo – matuta o Matuto – a dos amantes de cães. Tribo poderosa e em franco crescimento.
Dona Sirlei, reinicia o caminho de volta. Ali vinha a mulher italiana do Matuto, abraçando pães franceses saindo da padaria do português para se juntar, no carro, a outro português. Só no Brasil é possível esta mistureba. Ah, é verdade, neste país que tão generosamente acolheu o Matuto no seu seio todas as padarias são dum português. É como diz Zeca Baleiro na canção Telegrama:
Por isso hoje eu acordei com uma vontade danada De mandar flores ao delegado De bater na porta do vizinho e desejar bom dia De beijar o português da padaria
Entretanto Dona Sirlei anuncia que é preciso ir na “quitanda”. O Matuto ficou assarapantado. O que é isso? Uma mercearia, um lugar onde se vende frutas e legumes. Ah, sim! Pois era precisamente esse o nome que em Matutinho se dava às mercearias: ‘lugar’. Lugar, mercearia, quitanda... Babel instalou-se de armas e bagagens! Haja Deus!